domingo, 27 de setembro de 2026

 Os livros 

Ilustração de Monty Vaz

Há livros que vão e voltam. Há pouco tempo conversei com o meu amigo, o Dr. A., sobre um livro que havia lido na juventude "Le Matin des Magiciens" (O Despertar dos Mágicos), de 1960. Foi o primeiro livro que li em francês. Era um calhamaço de mais de 600 páginas, que eu carreguei comigo para cima e para baixo, até para as aulas de francês da escola. Não me lembro de o ter encontrado quando esvaziei o apartamento dos meus pais. Talvez tenha sido destruído, ou não me tenha chamado a atenção quando vasculhei as estantes. Foram muitas sessões de jogar coisas no lixo, separar outras para doação, distribuir pelos irmãos, ou tentar vender.  Os livros foram doados para o projeto @favelivro. Recentemente encontrei uma menção a "Le Matin des Magiciens" numa reportagem sobre o escritor haitiano Thélison Orélien. Ele foi acusado de usar IA para escrever um romance que chegou a ser indicado para o prêmio Goncourt. Parece que ele já havia sido acusado anteriormente de plagiar "Le Matin des Magiciens". Pena que eu não o resgatei e juntei a outros livros que li na juventudo, como "Crime e Castigo" e "Merlin ou a Terra Deserta". Fiquei com muita vontade de ler "C'était ça ou mourir", o livro de Thélyson Orélien, mesmo que ele tenha usado IA ou plagiado alguém para escrevê-lo.

Outra matéria recente sobre livros foi sobre o recente interesse da Geração Z pelo romance "As Noites Brancas" de Dostoievski, por influência, (pasmem!) do TikTok. Escrevi sobre isso no LinkedIn, o que causou grande hilaridade em alguns professores da universidade em que trabalho. Pelo menos a minha postagem serviu para fazê-los rir, o que já é uma grande utilidade.

Hoje fico por aqui, vou ler mais sobre Thélyson Orélien e continuar a ler "O Subsolo", que está no mesmo volume de "Noites Brancas", que acabei de reler em homenagem aos meus jovens amigos da Geração Z.

segunda-feira, 3 de março de 2025

A grande dor das cousas que passaram

O meu pai com dois aninhos incompletos

A melancolia das lembranças quebradas. Recentemente os meus irmãos e eu começamos a tarefa dificílima de esvaziar o apartamento onde moramos alguns dos anos mais importantes das nossas vidas. Uma das lembranças que eu tenho de lá foi a minha festa de 28 anos, quando eu tinha um tumor na mama e estava de cirurgia marcada para retirá-lo. Fiz uma festa como se não houvesse amanhã, literalmente.

Cada um de nós tem lembranças diferentes desse apartamento, muitas delas dolorosas. Encontrei uma foto do meu pai bebê, com uns dois anos, em uma moldura que já foi linda mas que hoje está suja e quebrada. O que faço com isso? Não sei. Não quero a foto nem a moldura, já tenho vários porta-retratos quebrados aqui em casa, dos quais não tenho coragem de me desfazer, mas não consigo jogar esse no lixo.

Os irmãos e eu estamos pisando em ovos, tentando não começar a III Guerra Mundial por causa desses cacarecos, mas é impossível não discordarmos de nada. É uma carga imensa de lembranças, nem todas agradáveis. 

Nada como recorrer aos poetas para entender os sentimentos que nos atormentam:

Camões, "A grande dor das cousas que passaram"
 
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.
 
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso dos meus anos;
Dei causa a que a fortuna castigasse
As minhas mais fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!

Carlos Drummond de Andrade, "A grande dor das cousas que passaram"

 A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.
 
Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.
 
Ó bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo a minha voz
 
para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!


domingo, 6 de outubro de 2024

Coisas que eu gosto

Sei Shonagon

 

Recentemente ouvi uma coach de escrita dizer de forma pejorativa que, se você quer escrever sobre "coisas que eu gosto" no seu blog, não precisa de ajuda. Achei engraçado e resolvi escrever exatamente sobre isso. Então comecei a tentar organizar as minha lista de "coisas"

 E como eu estava nadando no mar, o primeiro item da lista foi :

Natação em águas abertas 

Gostei da ideia, resolvi elaborá-la mais e organizar a minha lista de acordo com os cinco sentidos.

Livros - olfato e tato

Gatos - audição, tato e olfato (os gatinhos têm um cheirinho característico que os seus donos adoram)

Cogumelos - paladar, olfato e tato

Mar - visão, audição, paladar,  olfato e tato: essa foi o mais completa

Sexo - também desperta os cinco sentidos, mas de outro jeito… 

Uma pergunta para nos fazer refletir: - banana é melhor do que sexo?

Our Mother's House - um dos meus filmes prediletos. Trata de um grupo de irmãos que enterram a própria mãe no quintal e tentam continuar a vida como se nada tivesse acontecido. 

Yesterday - a canção dos Beatles é a favorita de muita gente, mas eu estou falando do filme em que só o protagonista se lembra deles. Eu às vezes me sinto assim, parece que só eu me lembro de algumas coisas. Um dia desses escrevo sobre isso.

Escadas malucas - a maioria eu só conheço de fotos, mas sempre despertam a imaginação.

Depois de começar esta postagem, li alguma coisa sobre Sei Shonagon, uma escritora japonesa que viveu  de 966 a 1017 e esreveu, entre outras obras o "Livro de Travesseiro", no qual ela incluiu várias listas de 'coisas', algumas de que ela gostava, e outras de coisas que fazem o coração bater mais rápido, coisas que não combinam, coisas que causam insegurança, coisas que são uma perda de tempo, coisas que melhoram ao ser pintadas, coisas que pioram ao ser pintadas. Gostei de saber que estou em tão boa companhia.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Minha pequena Olívia

Cortesia do modo de conversa do Bing
A ilustração foi cortesia do modo de conversa do Bing

Minha querida Olívia:

Como disse um dia o escritor Oscar Wilde, que você com certeza um dia vai ler e curtir, "a imitação é a mais sincera homenagem que a mediocridade pode prestar à grandeza". Escrevo isto para justificar a minha imitação da ideia que sua avó "postiça" teve de escrever uma carta para você. Achei linda a cartinha que a sua avó Raquel escreveu, aliás ela escreve muitas coisas lindas.

Ainda não conheço você pessoalmente, mas já estou completamente apaixonada pelas imagens que os seus pais têm divulgado, e pela onda de amor e generosidade que você despertou. Sonho com você quase todas as noites, penso em você, falo de você, escrevo sobre você, imagina! Que tia-avó louca você tem!

Hoje resolvi reler a cartinha que a minha mãe escreveu convidando a irmã do meu pai para ser minha madrinha, quando eu nasci. Herdei essa carta muitos anos depois, e ainda me sinto feliz por ter sido tão bem recebida neste mundo. Dirijo a você algumas palavras dela, que me acolheu neste mundo com muito amor: "...passo o tempo a contemplar a minha filha... sou a pessoa mais feliz e mais babosa que podes imaginar ..... quando ela nasceu, eu parecia parva.... dei completamente largas à minha alegria...  parecia que estourava de contente". Você talvez tenha estranhado algumas palavras desse texto, é que a sua tia-bisavó era portuguesa, como boa parte da nossa família.

Querida Olívia, você vai crescer e aprender a ler, espero que um dia você leia esta cartinha e se sinta tão bem recebida neste mundo como eu fui, lá em meados do século passado. É engraçado, quando eu era criança achava o máximo ter nascido no século anterior, como uma viagem no tempo. Agora fui eu que mudei de século e também de milênio.

Escrevo no ano de 2023, um ano de muitas mudanças no planeta Terra. Aconteceram coisas terríveis, guerras, terremotos, muita destruição. Mas a maior preocupação é que a cada ano que passa faz mais calor, e pode chegar ao ponto de tornar a nossa vida muito mais complicada e difícil. A esperança é que as pessoas estão começando a acreditar e se movimentar para mudar a forma de conseguir energia sem esquentar ainda mais  o planeta. Há muita gente trabalhando nisso, e espero que deixemos um planeta mais acolhedor para a sua geração.

Você nasceu numa época muito interessante. As coisas mudam muito rápido, e ao mesmo tempo que acontecem coisas horríveis, há muita gente descobrindo coisas novas e interessantes. Quem sabe você um dia vai conhecer outro planeta?

Um grande beijo da sua tia-avó que já te ama muito,

Filipa


sábado, 14 de janeiro de 2023

 Um desafio para chamar de meu 

Ilustração de Richard Scarry

Na primeira semana de 2023, o jornal New York Times publicou um desafio de sete dias para aumentar a felicidade dos seus leitores. A ideia foi incentivar as pessoas a cultivarem a sua rede de relacionamentos, e dessa forma serem mais felizes e até mais saudáveis. Eu aceitei o desafio, e resolvi escrever aqui no blog sobre esse assunto. Assim fica tudo organizado e guardado por um bom tempo, se não for para sempre.

Dia 1 - O questionário

O primeiro desafio foi um questionário, ao qual eu respondi com sinceridade. O resultado surpreendeu-me porque foi que eu sou muito sociável, o que não é exatamente verdade. Acho que foi feito para americanos típicos, e não para mim, uma luso-brasileira de meia idade que luta para manter a família unida.

Dia 2 - O telefonema de oito minutos

O desafio do segundo dia era ligar para alguém com que não falasse há muito tempo, mas só por oito minutos. Eu lembrei-me logo de ligar para uma amiga querida para quem eu não ligo com mais frequência porque quando nos falamos acabamos demorando demais. Ela aceitou o desafio e eu liguei para ela logo de manhã, e acabamos falando num ritmo ultra-rápido, para usar bem os oito minutos. No fim da tarde não aguentamos e falamos novamente. 

Dia 3 - Puxar assunto com um estranho

Esse desafio acabou tendo um resultado inesperado, porque normalmente é muito fácil para mim conversar com desconhecidos aleatórios. Nesse dia saí para comprar pão e procurar o tal estranho. Conversei um pouco com o dono e um funcionário de uma barraca de plantas, mas não valeu porque eu já os conhecia. Depois tentei ajudar uma velhinha a levar as compras para casa, mas ela não aceitou. Quando eu já estava quase desistindo, um vendedor de doces me abordou. Eu disse que não queria e que que não posso comer doces, mas não adiantou. Acabei tendo a minha conversa, já sei onde o vendedor mora, que tem uma filha de dois anos e meio e que está procurando trabalho. Acabei comprando um pacote de fraldas para a filha dele, então acho que fracassei no desafio, porque fiquei com a impressão de que ele conversou comigo só para conseguir o que queria.

Dia 4 - Escreva uma eulogia para uma pessoa viva

Este foi um dos mais fáceis e talvez o que me trouxe mais alegria. Escrevi (por e-mail) para uma colega de trabalho que acabou de ser demitida. Eu sempre gostei muito dela, e foi um choque saber que  a nossa convivência quase diária ia acabar. Ela até chorou ao receber o meu e-mail.
Nesse dia havia também uma subtarefa: Escrever para o seu "partner" uma lista de coisas pelas quais eu lhe sou grata (e ler a lista para ele). Foi um bom exercício, ele gostou tanto que até pediu para eu lhe mandar a lista por e-mail.

Dia 5 - Faça amigos no trabalho

Eu tenho a felicidade de trabalhar em um ambiente ótimo, onde me sinto muito querida. Mas esse desafio me faz pensar se essas amizades serão duradouras. E comecei a pensar se alguma amizade dos meus empregos passados ficou até hoje. Algumas pessoas de quem eu era próxima no passado mudaram de cidade e até de país... eu resolvi então ligar ou fazer contato por Whatsapp com algumas delas, e todas as minhas tentativas foram bem recebidas.

Dia 6 - Ponha um evento social no calendário (e vá)

Nesta época, logo a seguir às festas de fim de ano, e com muita gente de férias, esta tarefa pareceu-me dificílima. Depois de muito pensar, tentei e consegui marcar uma teleconferência com a minha antiga turma da faculdade! Missão cumprida!

Dia 7 - Três coisas para lembrar e ficar feliz o ano todo

Essa semana realmente trouxe-me muita felicidade que espero que perdure. Fiz minhas listas seguindo as recomendações do desafio, mas isso fica para outro post! As três recomendações foram essas:

1. Defina metas de relacionamento específicas para o ano (fiz uma listinha num caderno de papel)

2. Comprometa-se com a consistência (não adianta ser a mulher mais sociável do mundo na primeira semana do ano e enclausurar-me logo a seguir)

3. O segredo é o ritual (criar coisas como "o café das terças", "o almoço das amigas", etc.)