segunda-feira, 3 de março de 2025

A grande dor das cousas que passaram

O meu pai com dois aninhos incompletos

A melancolia das lembranças quebradas. Recentemente os meus irmãos e eu começamos a tarefa dificílima de esvaziar o apartamento onde moramos alguns dos anos mais importantes das nossas vidas. Uma das lembranças que eu tenho de lá foi a minha festa de 28 anos, quando eu tinha um tumor na mama e estava de cirurgia marcada para retirá-lo. Fiz uma festa como se não houvesse amanhã, literalmente.

Cada um de nós tem lembranças diferentes desse apartamento, muitas delas dolorosas. Encontrei uma foto do meu pai bebê, com uns dois anos, em uma moldura que já foi linda mas que hoje está suja e quebrada. O que faço com isso? Não sei. Não quero a foto nem a moldura, já tenho vários porta-retratos quebrados aqui em casa, dos quais não tenho coragem de me desfazer, mas não consigo jogar esse no lixo.

Os irmãos e eu estamos pisando em ovos, tentando não começar a III Guerra Mundial por causa desses cacarecos, mas é impossível não discordarmos de nada. É uma carga imensa de lembranças, nem todas agradáveis. 

Nada como recorrer aos poetas para entender os sentimentos que nos atormentam:

Camões, "A grande dor das cousas que passaram"
 
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.
 
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso dos meus anos;
Dei causa a que a fortuna castigasse
As minhas mais fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Gênio de vinganças!

Carlos Drummond de Andrade, "A grande dor das cousas que passaram"

 A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.
 
Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.
 
Ó bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo a minha voz
 
para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!


domingo, 6 de outubro de 2024

Coisas que eu gosto

Sei Shonagon

 

Recentemente ouvi uma coach de escrita dizer de forma pejorativa que, se você quer escrever sobre "coisas que eu gosto" no seu blog, não precisa de ajuda. Achei engraçado e resolvi escrever exatamente sobre isso. Então comecei a tentar organizar as minha lista de "coisas"

 E como eu estava nadando no mar, o primeiro item da lista foi :

Natação em águas abertas 

Gostei da ideia, resolvi elaborá-la mais e organizar a minha lista de acordo com os cinco sentidos.

Livros - olfato e tato

Gatos - audição, tato e olfato (os gatinhos têm um cheirinho característico que os seus donos adoram)

Cogumelos - paladar, olfato e tato

Mar - visão, audição, paladar,  olfato e tato: essa foi o mais completa

Sexo - também desperta os cinco sentidos, mas de outro jeito… 

Uma pergunta para nos fazer refletir: - banana é melhor do que sexo?

Our Mother's House - um dos meus filmes prediletos. Trata de um grupo de irmãos que enterram a própria mãe no quintal e tentam continuar a vida como se nada tivesse acontecido. 

Yesterday - a canção dos Beatles é a favorita de muita gente, mas eu estou falando do filme em que só o protagonista se lembra deles. Eu às vezes me sinto assim, parece que só eu me lembro de algumas coisas. Um dia desses escrevo sobre isso.

Escadas malucas - a maioria eu só conheço de fotos, mas sempre despertam a imaginação.

Depois de começar esta postagem, li alguma coisa sobre Sei Shonagon, uma escritora japonesa que viveu  de 966 a 1017 e esreveu, entre outras obras o "Livro de Travesseiro", no qual ela incluiu várias listas de 'coisas', algumas de que ela gostava, e outras de coisas que fazem o coração bater mais rápidocoisas que não combinamcoisas que causam insegurançacoisas que são uma perda de tempocoisas que melhoram ao ser pintadascoisas que pioram ao ser pintadas. Gostei de saber que estou em tão boa companhia.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Minha pequena Olívia

Cortesia do modo de conversa do Bing
A ilustração foi cortesia do modo de conversa do Bing

Minha querida Olívia:

Como disse um dia o escritor Oscar Wilde, que você com certeza um dia vai ler e curtir, "a imitação é a mais sincera homenagem que a mediocridade pode prestar à grandeza". Escrevo isto para justificar a minha imitação da ideia que sua avó "postiça" teve de escrever uma carta para você. Achei linda a cartinha que a sua avó Raquel escreveu, aliás ela escreve muitas coisas lindas.

Ainda não conheço você pessoalmente, mas já estou completamente apaixonada pelas imagens que os seus pais têm divulgado, e pela onda de amor e generosidade que você despertou. Sonho com você quase todas as noites, penso em você, falo de você, escrevo sobre você, imagina! Que tia-avó louca você tem!

Hoje resolvi reler a cartinha que a minha mãe escreveu convidando a irmã do meu pai para ser minha madrinha, quando eu nasci. Herdei essa carta muitos anos depois, e ainda me sinto feliz por ter sido tão bem recebida neste mundo. Dirijo a você algumas palavras dela, que me acolheu neste mundo com muito amor: "...passo o tempo a contemplar a minha filha... sou a pessoa mais feliz e mais babosa que podes imaginar ..... quando ela nasceu, eu parecia parva.... dei completamente largas à minha alegria...  parecia que estourava de contente". Você talvez tenha estranhado algumas palavras desse texto, é que a sua tia-bisavó era portuguesa, como boa parte da nossa família.

Querida Olívia, você vai crescer e aprender a ler, espero que um dia você leia esta cartinha e se sinta tão bem recebida neste mundo como eu fui, lá em meados do século passado. É engraçado, quando eu era criança achava o máximo ter nascido no século anterior, como uma viagem no tempo. Agora fui eu que mudei de século e também de milênio.

Escrevo no ano de 2023, um ano de muitas mudanças no planeta Terra. Aconteceram coisas terríveis, guerras, terremotos, muita destruição. Mas a maior preocupação é que a cada ano que passa faz mais calor, e pode chegar ao ponto de tornar a nossa vida muito mais complicada e difícil. A esperança é que as pessoas estão começando a acreditar e se movimentar para mudar a forma de conseguir energia sem esquentar ainda mais  o planeta. Há muita gente trabalhando nisso, e espero que deixemos um planeta mais acolhedor para a sua geração.

Você nasceu numa época muito interessante. As coisas mudam muito rápido, e ao mesmo tempo que acontecem coisas horríveis, há muita gente descobrindo coisas novas e interessantes. Quem sabe você um dia vai conhecer outro planeta?

Um grande beijo da sua tia-avó que já te ama muito,

Filipa


sábado, 14 de janeiro de 2023

 Um desafio para chamar de meu 

Ilustração de Richard Scarry

Na primeira semana de 2023, o jornal New York Times publicou um desafio de sete dias para aumentar a felicidade dos seus leitores. A ideia foi incentivar as pessoas a cultivarem a sua rede de relacionamentos, e dessa forma serem mais felizes e até mais saudáveis. Eu aceitei o desafio, e resolvi escrever aqui no blog sobre esse assunto. Assim fica tudo organizado e guardado por um bom tempo, se não for para sempre.

Dia 1 - O questionário

O primeiro desafio foi um questionário, ao qual eu respondi com sinceridade. O resultado surpreendeu-me porque foi que eu sou muito sociável, o que não é exatamente verdade. Acho que foi feito para americanos típicos, e não para mim, uma luso-brasileira de meia idade que luta para manter a família unida.

Dia 2 - O telefonema de oito minutos

O desafio do segundo dia era ligar para alguém com que não falasse há muito tempo, mas só por oito minutos. Eu lembrei-me logo de ligar para uma amiga querida para quem eu não ligo com mais frequência porque quando nos falamos acabamos demorando demais. Ela aceitou o desafio e eu liguei para ela logo de manhã, e acabamos falando num ritmo ultra-rápido, para usar bem os oito minutos. No fim da tarde não aguentamos e falamos novamente. 

Dia 3 - Puxar assunto com um estranho

Esse desafio acabou tendo um resultado inesperado, porque normalmente é muito fácil para mim conversar com desconhecidos aleatórios. Nesse dia saí para comprar pão e procurar o tal estranho. Conversei um pouco com o dono e um funcionário de uma barraca de plantas, mas não valeu porque eu já os conhecia. Depois tentei ajudar uma velhinha a levar as compras para casa, mas ela não aceitou. Quando eu já estava quase desistindo, um vendedor de doces me abordou. Eu disse que não queria e que que não posso comer doces, mas não adiantou. Acabei tendo a minha conversa, já sei onde o vendedor mora, que tem uma filha de dois anos e meio e que está procurando trabalho. Acabei comprando um pacote de fraldas para a filha dele, então acho que fracassei no desafio, porque fiquei com a impressão de que ele conversou comigo só para conseguir o que queria.

Dia 4 - Escreva uma eulogia para uma pessoa viva

Este foi um dos mais fáceis e talvez o que me trouxe mais alegria. Escrevi (por e-mail) para uma colega de trabalho que acabou de ser demitida. Eu sempre gostei muito dela, e foi um choque saber que  a nossa convivência quase diária ia acabar. Ela até chorou ao receber o meu e-mail.
Nesse dia havia também uma subtarefa: Escrever para o seu "partner" uma lista de coisas pelas quais eu lhe sou grata (e ler a lista para ele). Foi um bom exercício, ele gostou tanto que até pediu para eu lhe mandar a lista por e-mail.

Dia 5 - Faça amigos no trabalho

Eu tenho a felicidade de trabalhar em um ambiente ótimo, onde me sinto muito querida. Mas esse desafio me faz pensar se essas amizades serão duradouras. E comecei a pensar se alguma amizade dos meus empregos passados ficou até hoje. Algumas pessoas de quem eu era próxima no passado mudaram de cidade e até de país... eu resolvi então ligar ou fazer contato por Whatsapp com algumas delas, e todas as minhas tentativas foram bem recebidas.

Dia 6 - Ponha um evento social no calendário (e vá)

Nesta época, logo a seguir às festas de fim de ano, e com muita gente de férias, esta tarefa pareceu-me dificílima. Depois de muito pensar, tentei e consegui marcar uma teleconferência com a minha antiga turma da faculdade! Missão cumprida!

Dia 7 - Três coisas para lembrar e ficar feliz o ano todo

Essa semana realmente trouxe-me muita felicidade que espero que perdure. Fiz minhas listas seguindo as recomendações do desafio, mas isso fica para outro post! As três recomendações foram essas:

1. Defina metas de relacionamento específicas para o ano (fiz uma listinha num caderno de papel)

2. Comprometa-se com a consistência (não adianta ser a mulher mais sociável do mundo na primeira semana do ano e enclausurar-me logo a seguir)

3. O segredo é o ritual (criar coisas como "o café das terças", "o almoço das amigas", etc.)

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Em Busca do Livro Perdido

Old lady reading a book: Ilustração criada usando o MidJourney

Recentemente encontrei uma lista dos livros mais influentes do século XX preparada pelo jornal francês "Le Monde". Achei a lista interessante, embora não tenha lido todos, e comecei a pensar nos livros que mais me influenciaram. Segue a minha pequena lista, não só do século XX, sem qualquer ordem nem juízo de valor, de livros que marcaram a minha vida de alguma forma:

A grama está cantando - Doris Lessing

Este livro foi o segundo que li dessa grande escritora, premiada com o Nobel. É a história de uma mulher que deixa uma vida banal no ambiente urbano e acaba assumindo o comando de uma fazenda em plena África. O que me marcou foi a loucura que tomou conta da protagonista ao abraçar uma tarefa difícil demais para a capacidade dela, e que ela nunca desejou. 
P.S.: o primeiro livro que li dela foi "Os gatos em particular", um ótimo livro de memórias.


Viagem ao fim da noite - Louis-Ferdinand Céline

Uma das características do personagem principal desse romance genial mas totalmente negativo e pessimista, o Bardamu, é a sua total incapacidade de aprender inglês apesar de ter vivido bastante tempo nos Estados Unidos. Pouco depois, passei alguns meses na Holanda, e descobri a minha própria incapacidade de aprender holandês. Até hoje só sei duas ou três palavras e lembrei-me bastante como isso mudou a minha auto-imagem. Até então eu achava que tinha muito talento para aprender outras línguas.

Crime e Castigo - Dostoievsky

Este romance é uma obra-prima do meu autor predileto de todos os tempos. Eu fiquei tão impressionada depois de o ler, que me sentia o próprio Raskólnikov, o protagonista atormentado do livro, prestes a ser descoberto e preso pelos seus crimes. 

The poisonwood bible - Barbara Kinsgsolver

É a história de uma família de missionários batistas que se mudam para o antigo Congo Belga, e é contada alternadamente pelos vários membros da família. Fala da dificuldade de adaptação a uma realidade brutal, muito mais dura do que a que eles estavam acostumados. Eu encontrei nesse livro um paralelo entre a minha infância mais ou menos protegida e feliz em Lisboa e a realidade mais dura do Rio de Janeiro.


Contes de la  bécasse - Guy de Maupassant

Não me lembro de todos os contos, devem ser excelentes como tudo o que já li de Guy de Maupassant, mas o conto "No mar" tem uma descrição tão vívida de um marinheiro que tem o braço decepado num acidente com uma corda, que chegou a me embrulhar o estômago. Nunca me esqueci dessa sensação.


Atlas do Universo - Kevin Krisciunas & Bill Yenne

Este livro foi um presente do meu avô, quando eu ainda estava no ensino médio. As fotografias e ilustrações eram belíssimas, mas o que mais me agradou foi o meu avô ter me dado esse presente, nada feminino e nada infantil. Foi um reconhecimento ao meu interesse pelas ciências naturais (acabei me tornando geóloga) e um afago no meu ego. Obrigada, Avô!


A biblioteca de Babel - Jorge Luis Borges

Até hoje paro para pensar nas infinitas possibilidades da biblioteca criada pelo grande escritor argentino. Trata-se de uma biblioteca que contém todos os possíveis livros que podem ser escritos com um determinado número de letras do alfabeto, então contém tudo o que já foi escrito e que um dia será escrito. Todas as verdades possíveis, mas também muitos aglomerados de letras sem sentido. Acho que isso me tocou porque eu era ainda muito jovem, com infinitas possibilidades pela frente.


A derrocada da Baliverna - Dino Buzzati

Este livro também trata de culpa, como Crime e Castigo. Trata de uma travessura inocente que se transforma em tragédia. Quem fez a travessura é culpado ou inocente? Deve entregar-se à polícia e enfrentar as consequências, ou esconder a travessura, já que nunca teve a intenção de causar a tragédia?


Anna Karenina - Tolstoi

A Anna é uma personagem fantástica e a cena do suicídio é memorável, mas o que me marcou mais neste livro foi o personagem secundário Lévine, que é um aristocrata que tenta aplicar técnicas modernas de agricultura na sua fazenda, e nada funciona, em parte pela resistência dos mujiques, em parte porque essas técnicas não se adaptam à realidade da Rússia daquela época.


A consciência de Zeno - Ítalo Svevo

Li este livro na juventude por influência do meu pai, e era um dos favoritos do James Joyce, de quem nós dois éramos fãs. Na juventude a história dos pequenos fracassos do Sr. Zeno não me impressionou, detestei-a e esqueci-me dela. Recentemente dei o livro para ser vendido em um sebo, que o pôs na vitrine. Todas as vezes que eu passava pela loja, via o livro lá e pensava nele, no meu pai, que já tinha morrido, e ficava com vontade de recuperá-lo. Até que um dia não aguentei, entrei e disse que o livro era meu e que o queria de volta. O vendedor espantado não se opôs, até porque o livro tinha uma dedicatória do meu pai para mim, e o meu nome não é nada comum no Brasil. Então eu reli "A consciência de Zeno" já numa fase mais madura da vida, e reconheci o valor desse grande romance.


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

O Poder das Palavras


Ilustração de Lewis Carrol para Alice no País das Maravilhas


Dar nome aos Sentimentos

Li em algum lugar que é importante dar nome aos sentimentos para lidar melhor com eles. Não me lembro onde foi, para dar os devidos créditos. A autora propunha que fizéssemos um diário, e deu um link para um site que publica uma lista enorme de sentimentos e sensações corporais ligadas a eles (https://www.hoffmaninstitute.org/wp-content/uploads/Practices-FeelingsSensations.pdf). Não cheguei a fazer esse exercício, mas gostei da ideia e adotei o hábito de procurar um nome específico para sentimentos, sensações, e até para certas esquisitices, que eu achava que eram só minhas e acabei descobrindo que são bastante comuns. 


Narcolepsia

De vez em quando eu acordava no meio da noite completamente paralisada. Às vezes achava que estava morta e ficava esperando encontrarem o meu corpo pela manhã, outras vezes fazia tanta força para sair desse estado que parecia que uma parte de mim se separava do corpo, confirmando a impressão de que estava morta. Muitas vezes esse estado vinha acompanhado de alucinações, sempre apavorantes. Um dia conversei com os meus irmãos sobre isso, e descobrimos que todos tínhamos esse problema de vez em quando. Um dos irmãos chegou consultar um neurologista, que deu nome ao fenômeno: narcolepsia. Por um lado foi tranquilizador saber que o problema é comum e em geral benigno, mas por outro lado, só por falarmos nisso, causamos uma "epidemia" de paralisia noturna entre os irmãos. Falar no assunto, e até ver documentários ou ler sobre isso costuma causar ataques. Há muitos anos que não tenho nenhum, espero não provocar um ao escrever sobre isso.


Macropsia e Tripofobia

Outras doidices que eu achava que só eu tinha e descobri que também têm nome, são macropsia e tripofobia. Macropsia é a sensação de que as mãos ou alguma parte do corpo ficam desproporcionalmente grandes. Eu costumo ter essa impressão quando estou muito ansiosa, e soube que é comum crianças com febre terem essas sensações. Saber que isso tem nome também me ajudou a controlar esses ataques de ansiedade. Já saber o que é tripofobia, não me ajudou muito. Continuo tendo nojo de buracos agrupados, até em lugares inesperados como calotas ou lanternas de carros. Mesmo assim é tranquilizador saber que muita gente tem esse mesmo problema, não é nada especial.


Síndrome do Impostor

E não é que eu sofro dessa síndrome desde a mais tenra infância? Sempre tive medo de ser "descoberta", desde as travessuras infantis, até a minha performance nos estudos, do primário à pós-graduação. Foi muito tranquilizador para mim saber que milhões de pessoas sofrem desse mal, e que ele até tem nome. Continuo me considerando uma impostora, mas pelo menos aprendi a me perdoar e a lidar melhor com isso.


Escrever os Sonhos

Eu tenho a compulsão de contar o que sonhei durante a noite à primeira pessoa que eu encontro de manhã. Ainda não descobri qual é o nome disso, mas deve haver um. Como em geral essa pessoa é o meu marido, eu reconheço que estava ficando chato, porque os meus sonhos não são tão interessantes assim. Alguém sugeriu que eu os escrevesse em vez de contá-los. Assim eu resolveria o problema e ainda teria o ganho de guardar esse registro. Achei a ideia ótima e comecei a fazer isso. Só que não contava com mais esse poder das palavras: quanto mais eu escrevia os sonhos, menos me lembrava deles pela manhã, até que passei um bom tempo sem ter nada para escrever. Resolveu o meu problema, mas tirou da minha vida acordada a riqueza de me lembrar dessa vida paralela que acontece durante o sono. Depois de muito tempo voltei a me lembrar dos sonhos, e a ter a vontade incontrolável de contá-los ao meu marido. Então eu tento contar só um pedacinho, um fragmento que eu ache mais interessante, e isso já satisfaz a minha compulsão, sem sacrificar tanto quem me ouve. Escrever este post não destruiu a minha capacidade de me lembrar dos sonhos, parece que só funciona se eu escrever sonhos específicos. Que bom! Eu gosto dessa vida alternativa em que tudo é possível.


terça-feira, 26 de julho de 2022

Palavras, palavras, palavras!

Nuvem criada usando wordclouds.com com as palavras mais frequentes nas últimas postagens deste blog

Algumas palavras sempre me fizeram espécie... inovações que não parecem acrescentar nada à língua, ao contrário, parece que a empobrecem: "providenciar" é um exemplo. Por que não dizer "tomar uma providência", se for o caso, ou discriminar melhor o que vai ser feito: buscar, encomendar, pedir, comprar... o meu pai gostava de levar o hábito de inventar palavras por pura preguiça a extremos engraçados, como a palavra "pequenalmoçar", que quer dizer tomar o pequeno almoço, que é como se chama o café da manhã em Portugal.

A seleção natural acaba sumindo com as palavras inúteis e ficando com as que contêm alguma nuance de significado e assim enriquecem a língua. São como os seres vivos: as mais fracas estão fadadas à extinção.

Em inglês há a expressão "gaslighting" que veio de uma peça de teatro que resultou num filme ótimo com a Ingrid Bergman fazendo o papel da vítima do marido manipulador. Gaslighting é uma forma de abuso psicológico em que uma pessoa sistematicamente engana a outra para fazê-la acreditar que está ficando maluca. Essa expressão foi importada para o português, e não conheço palavra equivalente que a substitua.

Outra palavra que foi incorporada recentemente ao vocabulário no Brasil foi femininicídio, o assassinato de mulheres por motivos ligados ao fato de elas serem mulheres. Inicialmente parecia um pouco excessivo diferenciar os assassinatos dessa forma, até que a enxurrada de casos que aparecem diariamente na imprensa me fez ver que é uma palavra  necessária e importante, que infelizmente parece que veio para ficar.

Há palavras que espero que desapareçam rapidamente, como icônico, usado para descrever as coisas menos icônicas possíveis, como perfumes, pratos de restaurantes, músicas e até sapatos. Parece que qualquer coisa memorável passou a ter um significado religioso, como se o filé com fritas de algum restaurante antigo fosse digno de culto e adoração.

E nem falo de palavras antigas usadas com significados equivocados, como assertividade, que cada vez mais vem sendo usada como se tivesse alguma relação com acerto. 
























 

sábado, 1 de janeiro de 2022

Salpicos de Alegria

Minhas pequenas fofoletes (colagem usando o www.fotor.com)


Sprinkles of Joy = Salpicos de Alegria... foi assim que o Google traduziu essa frase, que foi o leitmotiv da carta de fim de ano que uma amiga querida compartilhou comigo. A carta dela, por exemplo, foi um salpico de alegria para mim.

Muita gente começou ou retomou algum hobby durante a pandemia. Entre afazeres domésticos, trabalho remoto, cuidados com a família, ainda encontramos tempo para fazer alguma coisa que nos traz conforto e sentido de realização. Eu comecei a fazer amigurumi, seguindo o exemplo da filha de uma amiga. Eu já tinha visto os bichinhos de crochê aqui e ali, mas não sabia nem que havia um nome japonês fofinho para eles.

Fazer amigurumis pode ser extremamente rápido ou demorar bastante, dependendo do tamanho e complexidade dos bichinhos e do tempo que dedicamos a eles. E a melhor parte é que não só é um grande prazer vê-los nascer nas nossas mãos, mas também dá-los de presente e levar um salpico de alegria a alguém que esteja precisando. E estamos todos precisando.

Que 2022 traga muitos salpicos de alegria para todos nós!

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Memorabilia

 


The Cluttered Attic by Steve Crisp

Há umas palavras que lemos primeiro em outra língua, em geral inglês, e depois descobrimos que também existem em português. Memorabilia (lê-se memorábilia) é uma delas. Pode significar uma coleção de objetos relacionados com um tema, como um time de futebol ou uma banda de música, por exemplo "memorabilia dos Beatles", ou simplesmente fatos ou coisas que suscitam lembranças. 

Há algum tempo, inspirada por um amigo português que reencontrei depois de quatro décadas, que falou em "Idéias Peregrinas", comecei a compilar um dicionário de palavras e frases da minha infância. Comecei devagar, pelas idéias peregrinas, e a coisa foi crescendo. Atualmente o dicionário tem 31 páginas e mais de mil entradas, e tenho ainda uma lista interminável de palavras e frases que ainda preciso de incluir nele.

Formei um grupo de Whatsapp com os meus cinco irmãos para irmos guardando lá as palavras de que nos formos lembrando. Às vezes damos boas risadas. De vez em quando aparece uma palavra ou frase de que só um de nós se lembra. Os mais prolíficos nessas palavras desirmanadas são o irmão mais velho e o mais novo, como é de se esperar. Não só eles são "mais loucos do que trinta cabras", mas também são o que começou primeiro, e o último a conviver com os nossos pais, depois dos outros saírem de casa. Inicialmente o dicionário era mais de expressões lá de Portugal, mas depois fomos incluindo algumas também do Brasil, que foram sendo incorporadas ao folclore da família.

Segue uma seleção de algumas de palavras ou frases pinçadas no dicionário da família. Espero que gostem.

  • Abichar: obter alguma coisa através de ardil
  • Bota-de-elástico: uma pessoa antiquada e um pouco ridícula
  • Coca-bichinhos: pessoa que se ocupa com coisas miúdas
  • Desarrincanço: uma solução genial para algum problema
  • Estafermo: pessoa de mau caráter
  • Fosquinhas, fazer: fazer gracinhas
  • Gaifonas, fazer: fazer caretas acompanhadas de gestos exagerados
  • Herodes para Pilatos, andar de: ter que ir a muitos lugares diferentes para resolver alguma coisa
  • Ideias peregrinas: ideias mirabolantes, que vão e voltam
  • Javardo: pessoa que não tem bons modos à mesa
  • Limpar as mãos à parede: conclusão de um serviço muito mal feito: “podes limpar as mãos à parede!”
  • Mata-cavalos, ir a: muito depressa
  • Nem o pai morre, nem a gente almoça: quando uma situação não ata nem desata
  • Olhos de carneiro mal morto: olhos semicerrados
  • Peúgas desirmanadas: meias desemparceiradas
  • Quando o rei faz anos: muito raramente
  • Rabiobeque: ornamento desnecessário
  • Sarilho, ou “bonito sarilho”: complicação, problema quase insolúvel
  • Tagaté: brincadeira para estimular uma criança pequena: "fazer tagatés"
  • Urso!  malcriado
  • Vê lá se te caem os parentes na lama! quando alguém não quer fazer um trabalho por ser humilhante
  • Xeque-morango: uma regra inventada na hora para ganhar um jogo que já estava perdido
  • Zurrapa: comida ou bebida muito ruim

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Autorretrato

 

Eu, por mim mesma


Um ano e alguns meses de pandemia. Vidas destruídas, sonhos vencidos, tristeza infinita. Ontem vi o retrato de uma mulher parecida comigo flutuando no fundo do Jornal Nacional, no meio dos mortos pela COVID-19. Vi também um morador de rua que se parecia com um dos meus irmãos. Ele ainda dormia, deixei um kit de higiene perto dele. Espero que tenha ajudado a tornar o dia dele um pouco melhor.

Dizem que o sentimento que se alastra nas nossas vidas enquanto a pandemia se arrasta chama-se definhar. Eu vejo uma sequência de sentimentos horríveis, todos com D:
  • Desalento
  • Desconsolo
  • Desespero
  • Devastação
  • Depressão
Definhar parece pouco para o que estamos todos passando.


sábado, 10 de abril de 2021

O Alfabeto do Desespero

Saul Steinberg, 1960
Saul Steinberg, 1960



Há uns dias li um alfabeto da pandemia, feito por um leitor de um jornal em inglês. Não me saiu mais da cabeça, por isso resolvi fazer a minha própria versão, em português:

Assombro, com tudo isso que estamos passando

Bebidas alcoólicas, para tentar aliviar a dor

Coronavírus, o maldito

Desalento, porque não vemos o fim desse pesadelo

Estarrecedor, o noticiário diário

Fome... o assassino silencioso invadindo cada vez mais casas de família

Gritos silenciosos dos entubados

Horas que custam a passar

Indescritível dor dos que ficaram

Jamais teremos que passar por isso novamente - esperança!

Liberdade perdida... pelo menos por quem tem responsabilidade

Madrugadas em claro, pensando no dia seguinte

Negacionismo, a arma dos impotentes

Obrigações, que devem ser cumpridas, cada vez mais

Pandemia, a palavra do ano, da década, do século...

Quarentena nossa de cada dia

Reinfecção, antes uma possibilidade, agora uma certeza

Sintomas, sintomas, estranhos sintomas

Tragédia, cada vez mais presente

Último ano, em que vivemos um pesadelo gigante

Viagens adiadas ou canceladas

Xenofobia, mais um efeito colateral da virose

Zoom, o aplicativo, que quase virou sinônimo de teleconferência

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Pequenas gentilezas

Saul Steinberg, 1970


Estamos todos cansados de doenças, mortes, e também de teorias da conspiração, que seriam até engraçadas se não levassem a resultados tétricos. O homem que se explodiu em Nashville (EUA) no Natal do ano passado acreditava em alienígenas reptilianos que assumiam forma humana para se infiltrar entre nós, teoria que talvez tenha levado aos jacarés da vacina.
Pequenos gestos de gentileza, por outro lado, mesmo sem maiores impactos na situação do planeta, trazem alívio e conforto. Tenho procurado ser mais gentil com as pessoas, o que me faz muito bem.  Tenho também presenciado muitos gestos de gentileza que me surpreenderam e aqueceram o coração. Espero com isto inspirar alguém, mesmo que seja a mim mesma, a tentar praticar um pequeno gesto de gentileza todos os dias. Segue a minha lista, pequenina e incompleta:
  • A empregada do mercado escolhendo limões para entrega na casa de algum perfeito estranho, com todo o cuidado, como se fossem para ela;
  • O morador de rua que cumprimenta meu marido todas as manhãs;
  • O entregador que se ofereceu para levar as minhas compras no carrinho dele;
  • O colega que guardou a minha bicicleta, alugada, que eu tinha deixado solta porque não havia lugar vago para ela;
  • Pessoas que seguram a porta, pedem desculpas quando esbarram em você, abrem passagem no corredor do supermercado;
  • Pessoas que conseguem sorrir com os olhos, para compensar a máscara.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Tristeza infinita


Saul Steinberg  - New Yorker, 1975

Uma das coisas que mais me entristeceram durante a pandemia, entre mil outras, foi o dia que eu dei uma gargalhada e o Sr. C. disse que há meses não ouvia a minha risada.

Tudo passa... mas algumas coisas deixam marcas para sempre. Penso, logo resisto... tento resistir à tentação de desistir de tudo. E procuro pensar que vou voltar a rir.


domingo, 8 de novembro de 2020

O mundo é branco



Eu sempre atribuí cores a números, letras e sons. Para mim, número dois é vermelho. O som do A é preto. Os sabores para mim têm as cores dos alimentos. Acho que todos temos um pouco dessa ligação entre os sentidos. Falei neste fenômeno porque recentemente passei por um período de anosmia, ou perda do olfato, que me fez lembrar dessa relação entre os sentidos. De repente uma dimensão do mundo ficou totalmente branca para mim. Não foi uma experiência totalmente negativa, foi mais estranha do que horrível. Os alimentos não tinham cheiro de nada, mas tinham sabor, então comer era sempre uma surpresa, em geral agradável. Foram poucos dias, o olfato voltou gradativamente, começando pelos produtos naturais, como a comida, e ainda permanece enfraquecido, quase três meses depois, para produtos químicos, como água sanitária.
Sei que este post não é dos mais interessantes, mas deixo aqui registrada mais uma das minhas impressões da pandemia de COVID-19. A anosmia é um dos sintomas mais frequentes dessa doença.
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"A sinestesia é uma condição neurológica do cérebro que interpreta de diferentes formas os sinais percebidos pelo nosso sistema sensorial. É uma confusão neurológica que provoca a percepção de vários sentidos de uma só vez. Essa condição não é considerada uma doença mental, e sim uma forma diferente que o cérebro tem de interpretar os sinais. Uma em cada duas mil pessoas têm sinestesia, e essas pessoas podem ver sons, sentir cores ou o paladar das formas."
(MORAES, Paula Louredo. "Sinestesia"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/oscincosentidos/sinestesia.htm. Acesso em 22 de setembro de 2020.)



domingo, 23 de agosto de 2020

Comfort Food

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"Comfort food" é o termo em inglês que quer dizer alguma coisa como comida reconfortante. Cada pessoa tem a sua, que normalmente vem da infância. Na Bíblia há um trecho que diz: "conforte-me com maçãs, pois desfaleço de amor". 

Nós, humanos, gostamos de nos confortar uns aos outros com comida. Não sei se entre animais há algum comportamento semelhante. Gatos gostam de trazer animais mortos para os seus donos, mas acredito que eles sabem que nós não gostamos de comer baratas e camundongos. 

Doces, especialmente chocolate, são reconfortantes para muita gente. Tanto para consumir como para oferecermos uns aos aos outros. Uma das minhas comidas reconfortantes preferidas é o Potaje, uma sopa espanhola de grão de bico, que a minha mãe fazia no inverno. Segue a receita: 

POTAJE 
• 1/2 kg de grão de bico demolhado e cozido em água e sal 
• 4 dentes de alho 
• 4 cebolas médias cortadas em meia-lua 
• Azeite 
• Colorau + páprica doce ou picante 
• Folhas de louro 
• Sal e pimenta do reino 
• Salsa e cebolinha verde picadas 
• (Opcional) 1 tomate sem pele picado ou 2 colheres de sopa de polpa ou molho de tomate
Refogar a cebola com o louro no azeite; quando começar a amolecer, juntar o alho, tomate e o colorau e/ou páprica. Juntar o grão de bico com a água do cozimento e deixar ferver. Corrigir o sal, pimenta e juntar mais água, se necessário. Quando estiver fervendo novamente, juntar salsa e cebolinha picadas. Pode levar outros legumes, eu gosto de pôr batatas, cenoura e repolho.
  
O grão de bico, além de ser para muitos uma comida reconfortante, tem muitas propriedades interessantes, como por exemplo: 
1) é um dos melhores alimentos para baixar o colesterol 
2) como outras leguminosas, é muito rico em proteínas 
3) contém um aminoácido conhecido como triptofeno, que, em grande quantidade, produz serotonina, substância responsável pela sensação de bem-estar 
 4) é muito delicioso