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sábado, 1 de janeiro de 2022

Salpicos de Alegria

Minhas pequenas fofoletes (colagem usando o www.fotor.com)


Sprinkles of Joy = Salpicos de Alegria... foi assim que o Google traduziu essa frase, que foi o leitmotiv da carta de fim de ano que uma amiga querida compartilhou comigo. A carta dela, por exemplo, foi um salpico de alegria para mim.

Muita gente começou ou retomou algum hobby durante a pandemia. Entre afazeres domésticos, trabalho remoto, cuidados com a família, ainda encontramos tempo para fazer alguma coisa que nos traz conforto e sentido de realização. Eu comecei a fazer amigurumi, seguindo o exemplo da filha de uma amiga. Eu já tinha visto os bichinhos de crochê aqui e ali, mas não sabia nem que havia um nome japonês fofinho para eles.

Fazer amigurumis pode ser extremamente rápido ou demorar bastante, dependendo do tamanho e complexidade dos bichinhos e do tempo que dedicamos a eles. E a melhor parte é que não só é um grande prazer vê-los nascer nas nossas mãos, mas também dá-los de presente e levar um salpico de alegria a alguém que esteja precisando. E estamos todos precisando.

Que 2022 traga muitos salpicos de alegria para todos nós!

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Autorretrato

 

Eu, por mim mesma


Um ano e alguns meses de pandemia. Vidas destruídas, sonhos vencidos, tristeza infinita. Ontem vi o retrato de uma mulher parecida comigo flutuando no fundo do Jornal Nacional, no meio dos mortos pela COVID-19. Vi também um morador de rua que se parecia com um dos meus irmãos. Ele ainda dormia, deixei um kit de higiene perto dele. Espero que tenha ajudado a tornar o dia dele um pouco melhor.

Dizem que o sentimento que se alastra nas nossas vidas enquanto a pandemia se arrasta chama-se definhar. Eu vejo uma sequência de sentimentos horríveis, todos com D:
  • Desalento
  • Desconsolo
  • Desespero
  • Devastação
  • Depressão
Definhar parece pouco para o que estamos todos passando.


sábado, 10 de abril de 2021

O Alfabeto do Desespero

Saul Steinberg, 1960
Saul Steinberg, 1960



Há uns dias li um alfabeto da pandemia, feito por um leitor de um jornal em inglês. Não me saiu mais da cabeça, por isso resolvi fazer a minha própria versão, em português:

Assombro, com tudo isso que estamos passando

Bebidas alcoólicas, para tentar aliviar a dor

Coronavírus, o maldito

Desalento, porque não vemos o fim desse pesadelo

Estarrecedor, o noticiário diário

Fome... o assassino silencioso invadindo cada vez mais casas de família

Gritos silenciosos dos entubados

Horas que custam a passar

Indescritível dor dos que ficaram

Jamais teremos que passar por isso novamente - esperança!

Liberdade perdida... pelo menos por quem tem responsabilidade

Madrugadas em claro, pensando no dia seguinte

Negacionismo, a arma dos impotentes

Obrigações, que devem ser cumpridas, cada vez mais

Pandemia, a palavra do ano, da década, do século...

Quarentena nossa de cada dia

Reinfecção, antes uma possibilidade, agora uma certeza

Sintomas, sintomas, estranhos sintomas

Tragédia, cada vez mais presente

Último ano, em que vivemos um pesadelo gigante

Viagens adiadas ou canceladas

Xenofobia, mais um efeito colateral da virose

Zoom, o aplicativo, que quase virou sinônimo de teleconferência

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Tristeza infinita


Saul Steinberg  - New Yorker, 1975

Uma das coisas que mais me entristeceram durante a pandemia, entre mil outras, foi o dia que eu dei uma gargalhada e o Sr. C. disse que há meses não ouvia a minha risada.

Tudo passa... mas algumas coisas deixam marcas para sempre. Penso, logo resisto... tento resistir à tentação de desistir de tudo. E procuro pensar que vou voltar a rir.


domingo, 8 de novembro de 2020

O mundo é branco



Eu sempre atribuí cores a números, letras e sons. Para mim, número dois é vermelho. O som do A é preto. Os sabores para mim têm as cores dos alimentos. Acho que todos temos um pouco dessa ligação entre os sentidos. Falei neste fenômeno porque recentemente passei por um período de anosmia, ou perda do olfato, que me fez lembrar dessa relação entre os sentidos. De repente uma dimensão do mundo ficou totalmente branca para mim. Não foi uma experiência totalmente negativa, foi mais estranha do que horrível. Os alimentos não tinham cheiro de nada, mas tinham sabor, então comer era sempre uma surpresa, em geral agradável. Foram poucos dias, o olfato voltou gradativamente, começando pelos produtos naturais, como a comida, e ainda permanece enfraquecido, quase três meses depois, para produtos químicos, como água sanitária.
Sei que este post não é dos mais interessantes, mas deixo aqui registrada mais uma das minhas impressões da pandemia de COVID-19. A anosmia é um dos sintomas mais frequentes dessa doença.
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"A sinestesia é uma condição neurológica do cérebro que interpreta de diferentes formas os sinais percebidos pelo nosso sistema sensorial. É uma confusão neurológica que provoca a percepção de vários sentidos de uma só vez. Essa condição não é considerada uma doença mental, e sim uma forma diferente que o cérebro tem de interpretar os sinais. Uma em cada duas mil pessoas têm sinestesia, e essas pessoas podem ver sons, sentir cores ou o paladar das formas."
(MORAES, Paula Louredo. "Sinestesia"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/oscincosentidos/sinestesia.htm. Acesso em 22 de setembro de 2020.)



domingo, 26 de julho de 2020

As máscaras da humildade

Masquerade - René Magritte

Parece que ultimamente o cúmulo da ignorância é não usar máscara. Os mais humildes desistiram, ou nem tentaram, pela sua visão fatalista das coisas, acham que vão pegar o COVID-19 de qualquer forma, então de que adianta tentar se proteger? Muitas outras pessoas, não tão humildes assim, não gostam do incômodo da máscara no rosto, e arranjam as desculpas mais variadas para não usar o acessório. Quem procura usar o bom senso e obedecer às autoridades, nem que seja para não se aborrecer à toa, acaba ficando menos protegido do que deveria, em meio a tanta desobediência e fanfarronice.
Sempre me vem à cabeça o pequeno poema de Camões,  Ao desconcerto do Mundo:

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.
Luís de Camões

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O que não ler durante a quarentena

O Bibliotecário - Giuseppe Arcimboldo (1566)

Tenho lido muitas sugestões sobre o que fazer durante estes tempos de reclusão. Ler é uma solução óbvia. Pessoalmente não tenho tido muitos problemas: entre tentar trabalhar, cuidar da casa e da família, e o bombardeio de notícias e análises sobre a própria pandemia, quase não tem sobrado tempo para a literatura. Antes das coisas se agravarem, eu tinha começado a reler um livro que para mim é o clássico dos clássicos, "Crime e Castigo", mas acabei largando porque é muito sombrio e ia acabar me deixando mais triste do que já estou, se é que isso é possível. Então, para prestar um serviço aos meus leitores, decidi elaborar uma lista de livros para não ler agora. São livros excelentes, não me entendam mal, recomendo que os leiam algum dia.
  1. Crime e castigo (Dostoievski) - a história de um rapaz que mata uma velha usurária para hipoteticamente poder estudar e trabalhar em prol da humanidade, obviamente não é uma leitura apropriada para estes tempos da pandemia que está dizimando os idosos.
  2. A Montanha Mágica (Thomas Mann) - trata de um jovem que vai visitar um primo em um sanatório para tuberculosos e acaba adiando a sua volta indefinidamente... não preciso explicar mais, não é?
  3. Os Buddenbrooks (Thomas Mann) - A saga de uma família alemã, atravessando várias gerações. Contém uma descrição terrível de uma morte por pneumonia. Não, não, não.
  4. Querida Doença (Patricia Highsmith) - o título já diz tudo... a doença é mental, mas mesmo assim não recomendo que ninguém leia esse livro agora.
  5. Viagem ao Fim da Noite (Céline) - a obra prima de um dos grandes escritores franceses do século XX é negativa demais para estes tempos de pandemia. Céline foi um personagem controverso, por suas posições antissemitas e ligação ambígua com o nazismo. Curiosamente, o seu trabalho de conclusão do curso de Medicina foi sobre o médico húngaro que descobriu que lavar as mãos era a melhor forma de evitar a “febre puerperal”
  6. Moby Dick (Melville) - a história do baleeiro Pequod e do capitão Ahab, um louco obcecado pela vingança que leva a sua tripulação à destruição e morte, não é uma leitura leve para distrair durante uma pandemia.
  7. A Grama está Cantando (Doris Lessing) - o primeiro romance dessa grande escritora, que chegou a ganhar um prêmio Nobel, trata de sonhos não realizados, depressão, racismo e violência. Motivos suficientes para não ler esse livro agora.
  8. Os Noivos (Manzoni) - um dos clássicos da literatura italiana, foi bastante lembrado recentemente na Itália por conter a descrição de uma peste que atingiu Milão em 1630. É um romance empolgante, fácil de devorar, mas talvez nãos seja a hora de ler histórias de peste e clausura.


domingo, 5 de abril de 2020

Querida Filipa (carta para mim mesma)

(Desenho de Saul Steinberg, 1967)

Rio de Janeiro, 5 de Abril de 2020

Querida Filipa de amanhã:

Espero que releias este texto daqui a alguns anos com saúde e cercada por toda a tua família.  A atual pandemia faz coisas estranhas conosco, e esta carta é uma prova disso. Espero que tudo passe mais depressa do que se está prevendo e que te possas lembrar com orgulho das coisas que fizeste durante este período sombrio.

Chegando à janela, já em tempos de pandemia, viste dois pombos mortos, atropelados, no meio da rua. Os coitadinhos deviam estar com fome, as pessoas que os alimentavam pararam de sair de casa, e com a rua vazia eles aventuraram-se demais e acabaram atropelados. Viste também um morcego morto na calçada (será que a morte dele tinha algo a ver com o vírus?), e um gatinho preto com os pelos todos arrepiados, assustado e com fome. Os animais são nossas sentinelas e avisam-nos das tragédias iminentes, é só prestar atenção.

Espero que não tenhas que te arrepender de decisões tomadas durante estes tempos de incerteza. São decisões difíceis para todos. Lembra-te que tentaste fazer tudo de maneira ponderada, e que ninguém podia prever o desfecho de tudo. Procuraste ser uma boa pessoa, generosa com pessoas desconhecidas, e também com as mais difíceis: as mais próximas de ti.

Perdoa-te e segue em frente.
Filipa de 2020

P.S.: Uns dias depois de escrever esta carta, vi um filhote de gambá morto, deitado de costas, muito direitinho, como se estivesse preparado para o funeral.
P.P.S.: Eu não saía de casa, a não ser por extrema necessidade. Avistei esses animais da janela, e nas poucas vezes em que precisei de sair para acudir a uma pessoa de idade,

segunda-feira, 23 de março de 2020

É o Medo, meu Pequeno Caçador, é o Medo

23/03/2020
Saul Steinberg, 1960

Bem leve, pela selva, corre essa sombra muito atenta,
E o suspiro se espalha e se alastra em toda parte,
E o suor em sua testa, pois ele passou agora mesmo...
É o medo, ó Pequeno Caçador, é o medo!
Rudyard Kipling, em tradução de Alexandre Barbosa da Costa

C’est la peur, mon petit chasseur, c’est la peur... meu pai me dizia isso, assim, em francês mesmo, quando percebia que eu estava apavorada com alguma coisa. Era uma forma de ele me dizer que entendia como eu estava me sentindo, e isso era de certa forma tranquilizador. Era como um código entre nós dois, mostrava que ele entendia o que eu estava passando, mesmo não podendo fazer nada quanto à causa desse medo.
Daqui a alguns anos, se sobrevivermos, a nossa vida vai ser dividida em antes e depois da Covid19. Ainda não sabemos o impacto que esta doença vai ter nas nossas vidas. Vamos ficar doentes? Morrer? Perder algum parente ou amigo? Sobreviver, mas perder o ganha-pão?
A pandemia tem nos mostrado o pior e o melhor dos seres humanos. Compras compulsivas, corrida às farmácias, boataria, contrastam com atitudes bonitas, iniciativas solidárias, as pessoas se organizando para ajudar umas às outras.
Não se sabe de onde veio a ideia de que poderia faltar papel higiênico, mas no mundo inteiro houve corrida aos supermercados para comprar pacotes e mais pacotes, até no Brasil, mesmo antes da epidemia nos atingir em cheio. A rebelião dos velhinhos, que se recusam a ficar em casa, também se repete em vários países. Usar máscaras cirúrgicas indiscriminadamente, sem nenhuma real utilidade, parece ser outro padrão de comportamento. Mais uma vez, nesta crise, lembro-me das palavras do meu pai, quando acontecia alguma coisa que eu achava inusitada: “os seres humanos não mudam nada”. Espero que ele estivesse enganado, e que desta vez nós tenhamos a capacidade de aprender alguma coisa.

P.S. (de 23/05/2020): depois de eu ter publicado este texto, as máscaras revelaram-se úteis, e tornaram-se até obrigatórias em lugares públicos. Ainda não faltou papel higiênico.