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sábado, 23 de maio de 2020

Flush e outros bichos

A morte do gato Murr - gravura de 1864 de Fernando II de Portugal (fonte: wikipedia)
Às vezes os grandes escritores disfarçam-se de animais, para lançar um olhar perplexo sobre os outros seres humanos. Lembrei-me de alguns livros escritos assim, narrados por cães e gatos, sabendo que há centenas, ou até milhares, de outros. Esta é só uma pequena seleção, que recomendo vivamente que leiam, são todos pequenas jóias:

Flush - este foi o único livro com que Virgínia Woolf ganhou algum dinheiro, que aproveitou para dar um carro à sua irmã Vanessa. É a biografia da poeta Elizabeth Browning narrada do ponto de vista do seu simpático Cocker Spaniel, Flush.

Mürr - é a obra-prima inacabada do escritor alemão E.T.A. Hoffmann. É parte dos "Contos Fantásticos de Hoffman", que deram origem a uma linda ópera, uma das mais populares de todas. O gato Murr gatafunhou as suas memórias em folhas arrancadas da biografia do seu companheiro humano, o Mestre de Capela Kreisler. As considerações do gato Murr ficaram para sempre misturadas com as do Sr. Kreisler. O gato Murr tem-se em grande consideração, é lindo e inteligente, e despreza o seu mestre e as suas complicações amorosas e devaneios artísticos. 

Mrs.Chippy - a divertida narrativa da expedição do Endurance feita pelo gato de estimação do carpinteiro de bordo, na época figuras importantíssimas em qualquer navio (carpinteiros e gatos). Eu escrevi sobre este livro aqui no blog em setembro de 2009.

Eu sou um Gato - um clássico da literatura japonesa, que demonstra que a ideia de escrever sobre os humanos do ponto de vista dos animais surgiu em várias culturas, e gerou várias obras primas. Eu já escrevi sobre "Eu sou um Gato" em novembro de 2019.

Ao escrever pela ótica dos animais os autores procuraram despir-se dos próprios preconceitos para tentar entender e revelar um pouco mais sobre as pessoas. E conseguiram fazê-lo de forma muito leve, esses quatro livros são extremamente divertidos.

Há muitos outros exemplos, claro. Encontrei a lista a seguir na web:
https://www.goodreads.com/list/show/12395.Best_Books_Written_from_an_Animal_s_POV


segunda-feira, 20 de abril de 2020

O que não ler durante a quarentena

O Bibliotecário - Giuseppe Arcimboldo (1566)

Tenho lido muitas sugestões sobre o que fazer durante estes tempos de reclusão. Ler é uma solução óbvia. Pessoalmente não tenho tido muitos problemas: entre tentar trabalhar, cuidar da casa e da família, e o bombardeio de notícias e análises sobre a própria pandemia, quase não tem sobrado tempo para a literatura. Antes das coisas se agravarem, eu tinha começado a reler um livro que para mim é o clássico dos clássicos, "Crime e Castigo", mas acabei largando porque é muito sombrio e ia acabar me deixando mais triste do que já estou, se é que isso é possível. Então, para prestar um serviço aos meus leitores, decidi elaborar uma lista de livros para não ler agora. São livros excelentes, não me entendam mal, recomendo que os leiam algum dia.
  1. Crime e castigo (Dostoievski) - a história de um rapaz que mata uma velha usurária para hipoteticamente poder estudar e trabalhar em prol da humanidade, obviamente não é uma leitura apropriada para estes tempos da pandemia que está dizimando os idosos.
  2. A Montanha Mágica (Thomas Mann) - trata de um jovem que vai visitar um primo em um sanatório para tuberculosos e acaba adiando a sua volta indefinidamente... não preciso explicar mais, não é?
  3. Os Buddenbrooks (Thomas Mann) - A saga de uma família alemã, atravessando várias gerações. Contém uma descrição terrível de uma morte por pneumonia. Não, não, não.
  4. Querida Doença (Patricia Highsmith) - o título já diz tudo... a doença é mental, mas mesmo assim não recomendo que ninguém leia esse livro agora.
  5. Viagem ao Fim da Noite (Céline) - a obra prima de um dos grandes escritores franceses do século XX é negativa demais para estes tempos de pandemia. Céline foi um personagem controverso, por suas posições antissemitas e ligação ambígua com o nazismo. Curiosamente, o seu trabalho de conclusão do curso de Medicina foi sobre o médico húngaro que descobriu que lavar as mãos era a melhor forma de evitar a “febre puerperal”
  6. Moby Dick (Melville) - a história do baleeiro Pequod e do capitão Ahab, um louco obcecado pela vingança que leva a sua tripulação à destruição e morte, não é uma leitura leve para distrair durante uma pandemia.
  7. A Grama está Cantando (Doris Lessing) - o primeiro romance dessa grande escritora, que chegou a ganhar um prêmio Nobel, trata de sonhos não realizados, depressão, racismo e violência. Motivos suficientes para não ler esse livro agora.
  8. Os Noivos (Manzoni) - um dos clássicos da literatura italiana, foi bastante lembrado recentemente na Itália por conter a descrição de uma peste que atingiu Milão em 1630. É um romance empolgante, fácil de devorar, mas talvez nãos seja a hora de ler histórias de peste e clausura.


domingo, 12 de maio de 2013

Abaixo a Ditadura dos Números!


Neste nosso mundo pós-bi-milenar e muito moderno, uma coisa que me faz espécie é a tirania dos números. Televisão de 30 polegadas (quanto é uma polegada mesmo?), azeite com 0.5% de acidez, vinho com 14% de alcool, Cocacola Zero, lençóis de 200 fios por polegada (mais uma vez, quem sabe quanto é uma polegada?), máquinas de café de 19 bares, café 100% Arábica, chocolate 85% cacau, e outros objetos e alimentos indispensáveis para a nossa saúde e bem estar são medidos por números, dos quais a maioria das pessoas, e nela eu me incluo, desconhece completamente o significado. E, para mais me espantar, cada vez as pessoas têm menos intimidade com os números e fazem escolhas muito melhores baseadas na intuição, como demonstra Jonah Lerer no seu excelente livro "Como Decidimos", no qual ele mostra e relata experimentos que mostram que o excesso de informações irrelevantes nos faz tomar decisões insensatas.
Na faculdade em que eu tive o privilégio de estudar e conviver com excelentes professores, aprendi a confiar nas evidências científicas, a embasar o pensamento em fatos, lidar com conceitos como acurácia e precisão, e desconfiar de qualquer tipo de pseudo-ciência baseada em opiniões e não em evidências. 
Então por que de repente me deu este rompante de aversão pela matemática? Na verdade não é aversão pela matemática, mas por fatos supostamente incontestáveis embasados em números incompreensíveis com que nos bombardeiam sistematicamente os meios de comunicação. Será que importa mesmo se a pressão da máquina de café é maior do que 15 bar? Quanto é um bar mesmo? E se eu gostar mesmo de café mal torrado e fervido com açúcar cristal, coado naqueles coadores de flanela que já não se encontra mais?




domingo, 21 de abril de 2013

Livros, livros e mais livros!

Real Gabinete Português de Leitura - Rio de Janeiro
 
Num mundo cada vez mais complicado, onde a hipocrisia anda de mãos dadas com o stress, cada vez mais precisamos de refletir sobre o que nos motiva a continuar... Hoje li um artigo sobre um comercial da Volkswagen que foi censurado por grupos de "gatófilos", que se indignaram porque havia associação de gatos pretos e azar. Como se isso fosse alguma novidade.
A gigante Volks curvou-se à censura e retirou o comercial. Nada contra os gatófilos, muito menos os gatos pretos, eu mesma convivo com um, o Sr. B., há mais de 17 anos, mas assusta-me pensar que não se pode mais brincar com a associação entre gatos pretos e falta de sorte...
Revolta-me o pouco apreço que muita gente tem pela liberdade de expressão, principalmente quando ela contraria as suas convicções do momento, seja proteção aos animais, orientação política, religião, ou seja lá o que for. E se esquecem que as ideias sempre progrediram em cima dos alicerces do passado,  e que os antigos não eram tão burros como alguns moderninhos gostam de fazer parecer, e que algumas ideias moderninhas são bem mais antigas que os atuais formadores de opinião gostam de nos impingir.

Remédio para isso: Livros, livros e mais livros!
 

sábado, 8 de janeiro de 2011

Livros e Gadgets

Le Livre Ouvert - Juan Gris


Tempos atrás o Sr. C. me emprestou um "leitor digital", o Kindle, para fazer um "test drive". Eu testei-o com um interessante conto de Kurt Vonnegut, do qual infelizmente não me lembro do nome. Era ambientado num futuro hipotético em que os acidentes e doenças tinham sido quase completamente eliminados, então para ter filhos as pessoas precisavam que alguém se entregasse voluntariamente para ser morto. A mulher do protagonista do conto estava grávida, e por isso o avô dele tinha se oferecido em sacrifício, mas logo desgraçadamente descobriu-se que eram gêmeos, então ou mais alguém teria que se sacrificar ou um dos bebês teria que ser selecionado para viver e o outro para morrer... Se alguém conhecer este conto, por favor poste o nome.
O conto era excelente, como tudo ou quase tudo que Kurt Vonnegut escreveu, e o Kindle foi uma surpresa das mais agradáveis, principalmente para quem, como eu, gosta de ler na cama: ele é bem mais fácil de manipular do que um livro de carne e osso, ou melhor, de papel e cartolina. É leve, basta um toque para virar as páginas, tem marcador de livros embutido, que não tem perigo de se perder se você cochilar enquanto lê. O tipo de letra que ele usa (não sei se tem várias opções) é muito bonito e agradável. O fato de não emitir luz, faz com que seja uma experiência muito diferente de "ler no computador". E ainda pode carregar um ou mais dicionários na memória, o que é bem mais fácil do que levantar-se da cama para procurar alguma palavra no dicionário ou tentar lembrar-se dela no dia seguinte de manhã. Ainda não dispensei os meus livros de papel nem os enormes dicionários que adoro consultar, mas com certeza ainda vou ter um Kindle ou o seu sucessor. Mas, como disse Umberto Eco, "o livro como objeto não vai desaparecer, é insuperável, tal qual a roda ou o martelo: você pode levá-lo para sua banheira sem ter medo de morrer eletrocutado; pode ler numa ilha deserta, enquanto o pobre Robinson Crusoé não saberia o que fazer com as baterias descarregadas de um e-book. Este livro em papel sobrevive mesmo que o deixemos cair do 5º andar de um prédio, mas tente fazer o mesmo com um livro eletrônico!"

domingo, 1 de agosto de 2010

O Pequeno Nicolau

O Pequeno Nicolau - Desenho de Goscinny

Se você foi privado na infância ou adolescência de ler as aventuras do Pequeno Nicolau, fique sabendo que ainda há tempo para corrigir essa terrível deficiência. Corra para a livraria mais próxima e garanta os seus, antes que as pessoas que viram o filme esgotem todos os exemplares.
Brincadeiras à parte, os vários episódios do Pequeno Nicolau são daqueles livros para crianças que têm vários níveis de significado, e enriquecem as nossas vidas para sempre, nada perdendo, ao contrário, ao serem relidos mais tarde. Se você tem filhos, é uma excelente iniciação à leitura, com textos curtos e ilustrados. O filme foi uma grata surpresa para mim, e dei boas gargalhadas ao reencontrar o humor aparentemente ingênuo dessa turma de pequenos bagunceiros franceses. Não perca os livros nem o filme!

sábado, 19 de junho de 2010

Os livros que permeiam a nossa vida


Para quem não gosta ou não tem o hábito de ler, é difícil explicar o amor pelos livros. Gostar de viver cercado deles, não aguentar nem ir ao banheiro sem a sua companhia, ser incapaz de se sentar para tomar um chá ou um café sem um deles, mesmo com o incômodo de segurar a chícara e o livro ao mesmo tempo, são características dos viciados em leitura que são inexplicáveis e às vezes irritantes para os não-leitores.
A mãe de um amigo meu, acometida de uma dessas doenças degenerativas devastadoras que felizmente são raras, entrou em depressão não por saber que a doença era incurável e lhe daria poucas chances de luta, mas por não poder segurar mais os livros, jornais e revistas de que tanto gostava.
Recentemente um colega geofísico russo enviou-me dois livros de Bulgakov, considerado um dos melhores escritores russos do século XX, que eu ignorava completamente. Que prazer indescritível descobrir assim sem mais nem menos outro grande escritor! E para enquadrá-lo no contexto histórico, nada como a internet: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mikhail_Bulgakov. Mais um médico escritor! O que leva tantos médicos a escrever? Muitos grandes escritores enfrentaram o duro caminho de estudar e começar a prática da medicina, e depois largaram tudo para tornar-se escritores profissionais, ou ainda conseguiram fôlego para exercer as duas profissões. Alguns, claro, estudaram medicina por pressão da família, e mais tarde abandonaram a carreira para seguir a verdadeira vocação, mas muitos descobriram que tinham as duas vocações, ou talvez o profundo conhecimento que desenvolveram da natureza humana através da prática em consultórios e hospitais os tenha levado a sentir essa necessidade de "reinventar o humano", como escreveu o crítico Harold Bloom.
Recentemente a minha amiga Mme I deu-me um livro, o excelente "A Elegância do Ouriço" de  Muriel Barbery. No livro há uma passagem em que uma das personagens principais fala da sua admiração por um dos jogadores ds rugbi da Nova Zelândia, que executa uma dança Maori antes das partidas com uma expressão particularmente concentrada. No mesmo dia em que li esse capítulo do livro, assisti ao filme "Invictus", onde aparece a mesma seleção de rugbi dançando a dança guerreira Maori que encantou a personagem. Algumas semanas depois, Martha Medeiros escreveu sobre o livro de Muriel Barbery na sua crônica A Elegância do Conteúdo, em que ela adomoesta os brasileiros a não se tornarem uma nação rica mas cheia de cabeças ocas. Essas coincidências e afinidades acontecem frequentemente com os leitores assíduos, e são um dos ganchos que levam ao vício incurável da leitura.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Climatério das Frutas

 Vertumnus - pintura de Giuseppe Arcimboldo - século XVI 

Robert Wolke, professor emérito de química da universidade de Pittsburg e premiadíssimo autor de livros de divulgação científica, manteve durante anos uma coluna no jornal The Washington Post na qual repondia perguntas dos leitores sobre qualquer coisa associada com comida. Nada de receitas ou dicas de nutrição e saúde. Wolke respondia às perguntas dos leitores usando o seu profundo conhecimento de química, e muitas vezes realizava experimentos ele mesmo, em casa ou nos laboratórios da universidade.
Num dos seus livros, O que Einstein Disse ao Seu Cozinheiro 2 - mais ciência na cozinha, ele dá uma interessante explicação sobre o amadurecimento das frutas, que eu resumo aqui:

Para cada tipo de fruta há um ponto em que o amadurecimento atinge o seu pico, após o qual começa o período de senescência (deterioração) e finalmente o apodrecimento. O pico de amadurecimento é quando ela tem uma bela cor, textura macia e melhor sabor, porque os ácidos terão diminuído, os açúcares aumentado e várias substâncias responsáveis pelo aroma e sabor terão sido produzidas.

O curioso é que nem todas as frutas amadurecem da mesma forma. Embora a maioria das frutas atinja suas melhores qualidades quando amadurecida na árvore, os abacates, por exemplo, só amadurecem totalmente depois de colhidos.

Muitas frutas à venda nos supermercados são colhidas deliberadamente ainda verdes, para que aguentem melhor o transporte. Outras são colhidas, despachadas e vendidas quase maduras, com a polpa firme que ficará gradualmente macia.

Então é muito útil saber quais as frutas continuarão a amadurecer em casa e quais precisam ser compradas no ponto em que vão ser consumidas, para não haver surpresas. As frutas que continuam a amadurecer depois de colhidas emanam etileno, o gás do amadurecimento, e para potencializar o seu efeito elas devem ser guardadas fora da geladeira (o frio retarda as reações químicas), embaladas em papel, com alguns furos porque o excesso de etileno pode estragar as frutas. Uma maçã, banana ou maracujá, as campeãs de emissão de etileno, pode ser guardada junto com outras frutas, porque as frutas que emitem mais gás vão ajudar as mais "fraquinhas" a amadurecer.

Segue a lista de frutas não climatéricas (ou seja, não adianta comprá-las verdes): cereja, frutas cítricas. pepino, romã, amora, framboesa, morango e melão

Frutas climatéricas (continuam a amadurecer): maçã, damasco*, abacate*, banana, mirtilo*,figo*, goiaba, kiwi, manga, nectarina*, papaia, maracujá, pêssego*, pera, caqui*, abacaxi, ameixa*, marmelo e tomate.

* as frutas marcadas com asterisco melhoram a cor e textura, mas não ficam mais doces.

sábado, 30 de janeiro de 2010

As Atribulações do Sr. Bouguer

(Pierre Bouguer no Peru - gravura obtida no site http://www.sieland-online.de)

Os mapas de anomalia Bouguer são bem conhecidos por geólogos e geofísicos pela sua utilidade em prospecção de petróleo e de outros minerais, caracterizados por diferenças de densidade em relação às rochas em que estão encaixados. Quanto maior a massa de um material maior a atração gravitacional que ele exerce, e as diferenças na densidade dos diversos materiais encontrados no subsolo pode ser medida utilizando instrumentos extremamente sensíveis, conhecidos como gravímetros.
O que poucos conhecem é a vida aventurosa deste senhor francês do século XVIII. Após diversas publicações cíentíficas na área naval, estudos de magnetismo, e importantes descobertas na área da ótica (inventou a fotometria), Bouguer engajou-se numa expedição ao Peru para medir a dimensão do um grau de meridiano da Terra, com o intuito de provar que Newton estava errado e a Terra era uma esfera perfeita. Nessa expedição científica, uma das mais anti-sociais de toda a história do conhecimento humano, todos se desentenderam. Bouguer brigou com La Condamine, o outro líder da expedição, briga que se estendeu até  à morte dos dois, porque Bouguer era melhor cientista e La Condamine melhor escritor. O botânico da expedição enlouqueceu, o médico foi assassinado e Jean Godin, o terceiro membro mais importante da expedição, fugiu com uma menina de 13 anos. Os peruanos não só não ajudaram em nada os nobres cientistas franceses, como também também ficaram muito desconfiados de mais uma excentricidade francesa, essa invenção de escalar algumas das montanhans mais difíceis do mundo carregando enorme parafernália, quando poderiam muito bem fazer os mesmos experimentos e medições em locais muito mais aprazíveis, sem sair da França.
No fim das contas a expedição de Bouguer apenas comprovou o que não queria, porque outra expedição francesa, fazendo medições em outro local extremamente inóspito, o norte da Escandinávia, provou primeiro que realmente a forma Terra se aproxima mais de um elipsóide do que de uma esfera, o que as medidas de Bouguer apenas comprovaram.
Por outro lado, as medições de variações na aceleração da gravidade que Bouguer tentou fazer utilizando pêndulos, para comprovar a variação lateral na atração gravitacional devida à massa das montanhas, não deram certo, mas renderam a Bouguer o nome das anomalias gravimétricas, que continua a ser impresso em milhares e milhares de mapas, trabalhos científicos e teses ao redor do planeta, além de ter dado o nome a duas crateras, uma em Marte e outra na Lua, glória inefável que ele nunca conseguiu durante a sua vida.

Fonte: Bill Bryson: A Short History of Nearly Everything, wikipedia, http://www-history.mcs.st-and.ac.uk/



sábado, 19 de dezembro de 2009

A Cruzada de Luciano Pires


(auto-retrato de Luciano Pires)


Cartunista, escritor, empresário, comunicador, motivador: é difícil definir Luciano Pires. Os seus livros não podem ser considerados de auto-ajuda, embora possam inspirar muita gente a auto-ajudar-se a vencer a mediocridade que se instalou nas nossas vidas.

O seu humor não é tão sarcástico como o de Stanislau Ponte Preta, com a sua lendária série Febeapá (FEstival de BEsteiras que Assola o PAís), mas lendo os seus livros não dá para deixar de fazer a comparação. Os engraçadíssimos "Brasileiros Pocotó" e "Nóis que invertemo as coisa" são uma crítica ácida ao que ele chama de "Pocotização do Brasil".

Citando a minha amiga Mrs. C.:

Recentemente li o livro “O meu Everest” de Luciano Pires, que fala de desejos, motivação, metas, acertos, dificuldades e principalmente, sonhos. O cara tinha um sonho, chegar ao Campo Base do Everest, e conseguiu realizá-lo. Traçou os seus objetivos e metas, e correu atrás para que seu sonho se tornasse realidade, e principalmente, teve vontade. Com dificuldades, dores, alegrias, angústias, medos, sensação de realização, como na vida da gente. Ele chegou lá, e sabe por quê? Porque era o sonho dele e ele tinha vontade de fazer acontecer. Cada um de nós tem o seu Everest, em qualquer lugar, a qualquer tempo. O que importa é sonhar e saber realizar, ter vontade e seguir em frente.

Veja parte do artigo da Newsletter dele desta semana:

CÉREBROS ROÍDOS

Quando em 2001 decidi começar uma cruzada pessoal contra a miséria intelectual que assola o Brasil eu sabia que a briga seria dura, mas que valeria a pena. De lá para cá sabe o que aconteceu?

Tornei-me colunista de programas de rádio. Lancei meu livro Brasileiros Pocotó. Realizei minhas palestras centenas de vezes no Brasil e no exterior. Fiz eventos de lançamento de livros em várias universidades. Criei o programa de rádio Café Brasil que está em 27 rádios pelo país. Lancei seis Melôs que foram assistidas por centenas de milhares de pessoas no Youtube. Ampliei meu cadastro de "assinantes" do site para mais de 125 mil nomes. Viajei para o Aconcágua e o Pólo Norte. Lancei o podcast Café Brasil que já tem mais de 100 mil downloads/mês.

Tornei-me colunista de dezenas de jornais, revistas e sites. Lancei meu novo livro NÓIS. Ufa! Uma trabalheira danada que recebeu pouquíssima repercussão na grande mídia. O barulho todo veio pela internet.

Mas agora a coisa mudou! Fui entrevistado na televisão, para matéria que foi ao ar no Jornal da Cultura! Vieram me entrevistar em meu escritório! Um jornalista e dois técnicos! Vixe!

Quando ligaram interessados na entrevista, fiquei excitado! Será que finalmente eu poderia tratar de meu trabalho de combate ao emburrecimento nacional? Falar das implicações políticas de nossas decisões do dia a dia? Chamar a atenção para o vácuo de cidadania que vivenciamos neste início de século? Comentar sobre a queda de conteúdo no sistema educacional? Discorrer sobre as raízes da corrupção em nossos pequenos atos diários? Discursar sobre a necessidade de enriquecer nosso repertório para refinar nossa capacidade de tomada de decisão? Argumentar sobre a importância de não ser um bovino resignado que simplesmente destila ressentimentos passivos? Conclamar o telespectador a conectar-se a outras pessoas interessadas em melhorar o estado das coisas? Provocar a todos pedindo que resistissem caso percebessem que o Brasil está ficando burro?

Não.
...........

Leia o resto no site dele: http://www.lucianopires.com.br/



(o falso bandido - cartum de Luciano Pires)

sábado, 28 de novembro de 2009

Bill Bryson e o Último Dodo


Alguns anos atrás passei por um "sebo" (loja de livros usados) e um livro chamado "Notes from a Small Island" (Crônicas de uma Pequena Ilha) chamou a minha atenção. O título era interessante, e o dono anterior, John Smith, tinha esquecido dentro dele um cartão de embarque para a cidade do México. Achei curioso e não resisti à tentação de comprar o livro, e tive o prazer de conhecer a prosa engraçada e inteligente de Bill Bryson. Depois procurei o autor na internet e descobri que ele é um dos escritores mais populares na Inglaterra, "mais popular até que os Beatles", o que deve ser um pouco de exagero. Bill Bryson escreveu vários relatos de viagens, e livros sobre curiosidades da língua inglesa, entre outros temas, todos escritos com humor e leveza. Bill consegue nos deixar com curiosidade de visitar lugares totalmente inssossos como Bristol, além de nos fazer dar boas risadas, o que por si só já vale a leitura.
Um dos melhores livros de Bill Bryson é A Short History of Nearly Everything "Uma Breve História de Quase tudo", que ganhou o prêmio de melhor livro de divulgação científica do ano de 2004, que trata desde temas como o Big Bang e as bactérias que habitam o nosso corpo, até a extinção dos pobres Dodos, aves "doudas"ou "doidas"que habitavam as ilha Mauricius até meados do séc XVIII.
O último especimen (empalhado) de dodo que restava no mundo, estava mofado e foi jogado desdenhosamento no fogo  pelo diretor do Museu de Oxford em que estava exposto. Essa foi a última das indignidades que essa espécie sofreu, depois de ser extinta pelos animais de estimação de marinheiros que passavam pelas ilhas. Os pobres dodos não tinham medo de seres humanos, eram naturalmente curiosos e não eram bons corredores, então quando descobriam o perigo já era tarde demais. Ah,  e eles nem sequer eram saborosos, coitadinhos.


(O que muitos ornitólogos não sabem, é que o Dodo na verdade era uma espécie muito avançada, que vivia pacificamente sozinha, até que no século XVII foi aniquilada pelo homem, ratazanas e cães. Como de hábito) 

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Por Que Eu Odeio Gatos



(tradução: eles nunca parecem contentes; as garras deles são horríveis; eles nunca vão salvar você; não fazem gracinhas; deixam a sua casa fedendo muito; não querem brincar com você; matam bebês; são molengões)

Mentira! Na verdade eu sou uma ailurófila apaixonada. Convivo com dois gatinhos, Sr. B. e Sr. F., que raramente querem brincar comigo, mas são muito meigos e bonzinhos. Mas não resisti ao traço aparentemente simples e ao humor de Natalie Dee, uma excelente cartunista que eu encontrei numa das minhas randonées pelo cyberespaço.

(eu odeio você)

 

Na mesma veia de humor anti-gato, o site My Cat Hates You também merece uma visita. Tudo começou com um site onde as pessoas postavam fotografias dos seus gatos em poses nada fofas, mostrando os dentes, garras, fazendo malcriação, dormindo em lugares impróprios, etc. O site tornou-se popular, e rendeu pelo menos um livro, já traduzido para português:


(capa do livro de Jim Edgar)



sábado, 14 de novembro de 2009

A Arte de Caroline Alexander e a Lei da Mamografia

Acabei de ler o excelente livro "The Bounty: The True Story of the Mutiny on the Bounty" (O Bounty: A Verdadeira História do Motim no Bounty) por Caroline Alexander (não confundir com a campeã olímpica de ciclismo). Caroline Alexander escreve no National Geographic, New York Times e outras publicações prestigiosas. A característica mais marcante da sua prosa é reescrever a história a partir de fontes primárias, tentando chegar o mais próximo possível da verdada através das versões dos diversos personagens envolvidos.

Ela escreveu vários livros de divulgação de História, entre eles o divertido relato do gatinho do Endurance, de que eu falei no post de 20 de setembro. Alguns foram traduzidos para Português.

Enquanto eu lia o livro e refletia sobre como uma mesma história, vivida por diversas testemunhas e amplamente relatada e discutida na sua época, pode ser interpretada de diversas formas, tomei conhecimento da existência da Lei Federal 11.664/2008, que faculta a todas as mulheres brasileiras de 40 a 49 anos o direito de fazer mamografias gratuitamente pelo SUS. Essa lei tem sido interpretada erroneamente de várias formas e tem gerado bastante confusão. O INCA divulgou uma nota esclarecedora, leia no link abaixo para se informar, porque você ainda pode se tornar vítima de interpretações equivocadas dessa lei:



(quadro de autor desconhecido - Séc. XVI - Louvre)

sábado, 7 de novembro de 2009

Uma ideia leva a outra que leva a outra que leva a outra...


Ao vasculhar mais um expositor da editora gaúcha L&PM, que publica ótimos livros de bolso, nacionais ou estrangeiros em traduções primorosas, deparei-me com um exemplar de "Max e os Felinos", de Moacyr Scliar. Esse livro, já consagrado pelos fãs desse médico e escritor gaúcho, e traduzido para vária línguas, ganhou mais notoriedade depois do escritor canadense Yann Martel ganhar o prêmio Booker em 2002, com o livro "A Vida de Pi", que se inspirou na ideia central do livro de Scliar. Ambos partem de uma viagem solitária de um náufrago com um grande felino: um jaguar, no livro brasileiro e um tigre no livro canadense. Ambos têm grandes passagens sobre o medo e a solidão, embora o desenrolar das histórias seja bastante diferente.
Yann Martel reconhece que se inspirou na ideia de Scliar para escrever o seu livro, embora tenha lido apenas uma resenha, e é interessante ler os dois livros e observar a similaridade dos relatos imaginados pelos dois autores sobre os longos dias passados pelos seus protagonistas na companhia das respectivos feras.



Moacyr Scliar escreveu uma instigante discussão sobre o plágio na introdução à edição de bolso da L&PM do seu livro. Leia mais sobre os dois livros no arquivo do Estadão:

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Agatha Christie e as Recordações


Sempre admirei a capacidade que algumas pessoas têm de ler e selecionar citações para dividir com os amigos. Eu adorei esta, que a minha amiga Mme I encontrou na autobiografia da Agatha Christie:

"Para mim a vida parece consistir em três partes: o atarefado e normalmente agradável presente, que corre de minuto em minuto a uma velocidade fatal; o futuro, vago e incerto, para o qual podemos fazer alguns planos interessantes, quanto mais loucos e improváveis melhor, já que, como nada vai se passar como esperamos, podemos divertir-nos à vontade planejando; e, em terceiro lugar, o passado, as recordações e realidades que são o substrato da nossa vida presente, trazidos de volta de repente por um aroma, o formato de um morro, uma antiga canção - uma banalidade qualquer que nos faz dizer de repente "isso lembra-me..." com um estranho e inexplicável prazer. Essa é uma das compensações que a idade nos traz, e certamente uma das mais agradáveis: recordar".

Ler a autobiografia de Agatha Christie também foi, para mim, um estranho e inexplicável prazer. Recomendo!

domingo, 20 de setembro de 2009

Mrs. Chippy, o gatinho do Endurance

Seguindo a tradição do Gato Mürr de E.T.A. Hoffman, que escreveu as suas memórias no verso das memórias do seu dono, e do cocker spaniel Flush de Virginia Woolf, que narrou a atribulada vida da poetisa Elizabeth Browning no seu diário, a jornalista Caroline Alexander escreveu a saga da malfadada expedição liderada por Shackleton à Antartida em 1914, vista pelos olhos do gato do carpinteiro do barco, Mrs. Chippy. O gatinho tinha por obrigação caçar todos os ratos que ameaçavam a expedição do 'Endurance', fazer rondas, inspecionar as experiências do biólogo de bordo, observar a natureza, praticar equilibrismo na amurada mesmo nas piores condições de mar, tendo chegado a cair e ficar 10 minutos na água gelada, o que seria mais do suficiente para matar qualquer ser humano. Outra das suas atividades era passear em cima das gaiolas onde eram mantidos os cachorros, o que muito os enfurecia.
O Endurance acabou ficando meses e meses entalado no gelo, até que todos os humanos foram obrigados a abandoná-lo, sacrificando antes o gatinho e os outros animais. Shackleton conseguiu, com muita dificuldade, conduzir a retirada de todos os membros da tripulação, sem perder nenhuma vida humana, o que é considerado um grande exemplo de liderança, menos pelo carpinteiro, Henry McNeish, que nunca o perdoou pela perda do heróico gatinho, que nunca deixou de cumprir as suas obrigações, mesmo nas condições mais adversas.

O nome do livro é "Mrs. Chippy's Last Expedition", e acho que não existe tradução para português.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A Erva Canta e a Bíblia Envenenada

A Erva Canta (The Grass is Singing - Doris Lessing - 1950) e A Bíblia Envenenada (The Poisonwood Bible - Barbara Kingsolver -1998) - Dois excelentes livros escritos por mulheres, em épocas diferentes, embora as tramas se desenrolem mais ou menos na mesma época, sobre a dificuldade de adaptação de outras mulheres às rudes condições de vida na África.