Bem leve, pela selva, corre essa sombra muito atenta,
E o suspiro se espalha e se alastra em toda parte,
E o suor em sua testa, pois ele passou agora mesmo...
É o medo, ó Pequeno Caçador, é o medo!
Rudyard Kipling, em tradução de Alexandre Barbosa da Costa
C’est la peur, mon petit chasseur, c’est la peur... meu pai me dizia isso, assim, em francês mesmo, quando percebia que eu estava apavorada com alguma coisa. Era uma forma de ele me dizer que entendia como eu estava me sentindo, e isso era de certa forma tranquilizador. Era como um código entre nós dois, mostrava que ele entendia o que eu estava passando, mesmo não podendo fazer nada quanto à causa desse medo.
Daqui a alguns anos, se sobrevivermos, a nossa vida vai ser dividida em antes e depois da Covid19. Ainda não sabemos o impacto que esta doença vai ter nas nossas vidas. Vamos ficar doentes? Morrer? Perder algum parente ou amigo? Sobreviver, mas perder o ganha-pão?
A pandemia tem nos mostrado o pior e o melhor dos seres humanos. Compras compulsivas, corrida às farmácias, boataria, contrastam com atitudes bonitas, iniciativas solidárias, as pessoas se organizando para ajudar umas às outras.
Não se sabe de onde veio a ideia de que poderia faltar papel higiênico, mas no mundo inteiro houve corrida aos supermercados para comprar pacotes e mais pacotes, até no Brasil, mesmo antes da epidemia nos atingir em cheio. A rebelião dos velhinhos, que se recusam a ficar em casa, também se repete em vários países. Usar máscaras cirúrgicas indiscriminadamente, sem nenhuma real utilidade, parece ser outro padrão de comportamento. Mais uma vez, nesta crise, lembro-me das palavras do meu pai, quando acontecia alguma coisa que eu achava inusitada: “os seres humanos não mudam nada”. Espero que ele estivesse enganado, e que desta vez nós tenhamos a capacidade de aprender alguma coisa.
P.S. (de 23/05/2020): depois de eu ter publicado este texto, as máscaras revelaram-se úteis, e tornaram-se até obrigatórias em lugares públicos. Ainda não faltou papel higiênico.
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 23 de março de 2020
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Eu, gato
Devo ter um senso de humor seriamente distorcido, porque recentemente chorei de rir lendo as desventuras de um gatinho japonês sem nome, narradas pelo próprio gato.... insólito.
Às vezes sinto tanta falta de um gatinho, que é quase uma dor física. Tenho muitas saudades do Bismarck, do Frederico, do Edmundo, do Artaxerxes, do Danilo, do Radamés, do Sardinha, da Pavorinha, para nomear só alguns que foram importantes na minha vida. Eu achava que era a única pessoa que gostava do cheiro dos gatos, mas não: é até um gosto muito comum, quase um clichê. Parece que no Japão até se vende um spray para ambientes com cheiro de cabeça de gato.
Isso me leva a pensar como todas as pessoas no fundo têm as mesmas necessidades e anseiam pelas mesmas coisas. É de aquecer o coração ver como as pessoas miseráveis que moram nas ruas do Rio tratam bem os seus animais de estimação, normalmente cães. O prazer de ser alvo do amor de um cãozinho é maior do que as outras carências dessas pessoas. Cães são barulhentos, palhaços, amigos, babões. Acho que essas pessoas não têm gatos porque é mais difícil mantê-los perto de si nas ruas. Eles são mais independentes e acabam se afastando e voltando a ser selvagens, ou se acomodando em algum lugar mais protegido do que a rua.
Quando moram em ambientes onde se sentem seguros e confiantes, gatos são companheiros silenciosos e afáveis, gostam de atenção, que as pessoas se ocupem deles, os mimem e adorem. Os seus olhos grandes e inteligentes fixam-se nos nossos com uma intensidade quase hipnótica. As proporções das carinhas dos gatos, a vivacidade das orelhas em pé, as brincadeiras de filhote mesmo quando o gato já é velho, fazem deles eternas crianças aos nossos olhos de adultos cansados.
Eu sou um gato (1904) é um romance satírico de Natsume Soseki, importante escritor japonês que até já teve o seu retrato estampado nas notas de 1000 ienes. É fácil baixá-lo em tradução inglesa na internet.
![]() |
| Nota de 1000 ienes de 1984 com a efígie de Natsume Soseki |
Assinar:
Postagens (Atom)


