segunda-feira, 20 de abril de 2020

O que não ler durante a quarentena

O Bibliotecário - Giuseppe Arcimboldo (1566)

Tenho lido muitas sugestões sobre o que fazer durante estes tempos de reclusão. Ler é uma solução óbvia. Pessoalmente não tenho tido muitos problemas: entre tentar trabalhar, cuidar da casa e da família, e o bombardeio de notícias e análises sobre a própria pandemia, quase não tem sobrado tempo para a literatura. Antes das coisas se agravarem, eu tinha começado a reler um livro que para mim é o clássico dos clássicos, "Crime e Castigo", mas acabei largando porque é muito sombrio e ia acabar me deixando mais triste do que já estou, se é que isso é possível. Então, para prestar um serviço aos meus leitores, decidi elaborar uma lista de livros para não ler agora. São livros excelentes, não me entendam mal, recomendo que os leiam algum dia.
  1. Crime e castigo (Dostoievski) - a história de um rapaz que mata uma velha usurária para hipoteticamente poder estudar e trabalhar em prol da humanidade, obviamente não é uma leitura apropriada para estes tempos da pandemia que está dizimando os idosos.
  2. A Montanha Mágica (Thomas Mann) - trata de um jovem que vai visitar um primo em um sanatório para tuberculosos e acaba adiando a sua volta indefinidamente... não preciso explicar mais, não é?
  3. Os Buddenbrooks (Thomas Mann) - A saga de uma família alemã, atravessando várias gerações. Contém uma descrição terrível de uma morte por pneumonia. Não, não, não.
  4. Querida Doença (Patricia Highsmith) - o título já diz tudo... a doença é mental, mas mesmo assim não recomendo que ninguém leia esse livro agora.
  5. Viagem ao Fim da Noite (Céline) - a obra prima de um dos grandes escritores franceses do século XX é negativa demais para estes tempos de pandemia. Céline foi um personagem controverso, por suas posições antissemitas e ligação ambígua com o nazismo. Curiosamente, o seu trabalho de conclusão do curso de Medicina foi sobre o médico húngaro que descobriu que lavar as mãos era a melhor forma de evitar a “febre puerperal”
  6. Moby Dick (Melville) - a história do baleeiro Pequod e do capitão Ahab, um louco obcecado pela vingança que leva a sua tripulação à destruição e morte, não é uma leitura leve para distrair durante uma pandemia.
  7. A Grama está Cantando (Doris Lessing) - o primeiro romance dessa grande escritora, que chegou a ganhar um prêmio Nobel, trata de sonhos não realizados, depressão, racismo e violência. Motivos suficientes para não ler esse livro agora.
  8. Os Noivos (Manzoni) - um dos clássicos da literatura italiana, foi bastante lembrado recentemente na Itália por conter a descrição de uma peste que atingiu Milão em 1630. É um romance empolgante, fácil de devorar, mas talvez nãos seja a hora de ler histórias de peste e clausura.


domingo, 5 de abril de 2020

Querida Filipa (carta para mim mesma)

(Desenho de Saul Steinberg, 1967)

Rio de Janeiro, 5 de Abril de 2020

Querida Filipa de amanhã:

Espero que releias este texto daqui a alguns anos com saúde e cercada por toda a tua família.  A atual pandemia faz coisas estranhas conosco, e esta carta é uma prova disso. Espero que tudo passe mais depressa do que se está prevendo e que te possas lembrar com orgulho das coisas que fizeste durante este período sombrio.

Chegando à janela, já em tempos de pandemia, viste dois pombos mortos, atropelados, no meio da rua. Os coitadinhos deviam estar com fome, as pessoas que os alimentavam pararam de sair de casa, e com a rua vazia eles aventuraram-se demais e acabaram atropelados. Viste também um morcego morto na calçada (será que a morte dele tinha algo a ver com o vírus?), e um gatinho preto com os pelos todos arrepiados, assustado e com fome. Os animais são nossas sentinelas e avisam-nos das tragédias iminentes, é só prestar atenção.

Espero que não tenhas que te arrepender de decisões tomadas durante estes tempos de incerteza. São decisões difíceis para todos. Lembra-te que tentaste fazer tudo de maneira ponderada, e que ninguém podia prever o desfecho de tudo. Procuraste ser uma boa pessoa, generosa com pessoas desconhecidas, e também com as mais difíceis: as mais próximas de ti.

Perdoa-te e segue em frente.
Filipa de 2020

P.S.: Uns dias depois de escrever esta carta, vi um filhote de gambá morto, deitado de costas, muito direitinho, como se estivesse preparado para o funeral.
P.P.S.: Eu não saía de casa, a não ser por extrema necessidade. Avistei esses animais da janela, e nas poucas vezes em que precisei de sair para acudir a uma pessoa de idade,

segunda-feira, 23 de março de 2020

É o Medo, meu Pequeno Caçador, é o Medo

23/03/2020
Saul Steinberg, 1960

Bem leve, pela selva, corre essa sombra muito atenta,
E o suspiro se espalha e se alastra em toda parte,
E o suor em sua testa, pois ele passou agora mesmo...
É o medo, ó Pequeno Caçador, é o medo!
Rudyard Kipling, em tradução de Alexandre Barbosa da Costa

C’est la peur, mon petit chasseur, c’est la peur... meu pai me dizia isso, assim, em francês mesmo, quando percebia que eu estava apavorada com alguma coisa. Era uma forma de ele me dizer que entendia como eu estava me sentindo, e isso era de certa forma tranquilizador. Era como um código entre nós dois, mostrava que ele entendia o que eu estava passando, mesmo não podendo fazer nada quanto à causa desse medo.
Daqui a alguns anos, se sobrevivermos, a nossa vida vai ser dividida em antes e depois da Covid19. Ainda não sabemos o impacto que esta doença vai ter nas nossas vidas. Vamos ficar doentes? Morrer? Perder algum parente ou amigo? Sobreviver, mas perder o ganha-pão?
A pandemia tem nos mostrado o pior e o melhor dos seres humanos. Compras compulsivas, corrida às farmácias, boataria, contrastam com atitudes bonitas, iniciativas solidárias, as pessoas se organizando para ajudar umas às outras.
Não se sabe de onde veio a ideia de que poderia faltar papel higiênico, mas no mundo inteiro houve corrida aos supermercados para comprar pacotes e mais pacotes, até no Brasil, mesmo antes da epidemia nos atingir em cheio. A rebelião dos velhinhos, que se recusam a ficar em casa, também se repete em vários países. Usar máscaras cirúrgicas indiscriminadamente, sem nenhuma real utilidade, parece ser outro padrão de comportamento. Mais uma vez, nesta crise, lembro-me das palavras do meu pai, quando acontecia alguma coisa que eu achava inusitada: “os seres humanos não mudam nada”. Espero que ele estivesse enganado, e que desta vez nós tenhamos a capacidade de aprender alguma coisa.

P.S. (de 23/05/2020): depois de eu ter publicado este texto, as máscaras revelaram-se úteis, e tornaram-se até obrigatórias em lugares públicos. Ainda não faltou papel higiênico.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Confissões de um Farrapo Humano


Farrapo Humano é o nome em português do filme The Lost Weekend, de 1945. Trata de um escritor que se torna um alcoólatra, e que julga não conseguir escrever se não estiver sob o efeito de álcool.
Há alguns anos eu andei bebendo descontroladamente e tive que repensar a minha relação com a bebida. Tomava umas cervejinhas todos os dias, e cada dia precisava beber uma quantidade maior para ficar satisfeita. No calor do Rio de Janeiro, uma cervejinha gelada vai sempre muito bem. Duas, melhor ainda. Três, então...

Aí algumas coisas abriram os meus olhos. Uma delas foi o teste AUDIT (Teste de Identificação de Desordens Devido ao Uso de Álcool ) da Organização Mundial da Saúde. A última pergunta do teste é se alguém já mostrou preocupação com você por causa de bebida ou lhe disse para parar de beber. Acontece que sim, já. Dentre todas as perguntas, essa foi a que mais me impactou, não sei por quê, pois em geral não me preocupo muito com o que as outras pessoas pensam de mim.

A outra coisa que aconteceu comigo foram frequentes viagens com um cliente da empresa em que eu trabalhava na época, que era ex-alcoólatra. Eu já não costumava beber muito nas viagens a trabalho, mas na companhia dele passei a não beber nada, pois achava muita crueldade beber na frente de alguém que declaradamente tinha problemas com o álcool. Nessas viagens eu descobri que conseguia passar bastante tempo sem beber e sem sentir muita falta da bebida.

Depois veio a cerveja sem álcool. Eu já tinha provado umas versões mais antigas, e não tinha gostado. Mas a nova geração é bem mais palatável, principalmente se você não a tomar logo após ter bebido cerveja normal. Se você já está bebendo e prova a cerveja sem álcool, ela parece aguada, mas se tomar só dela, é saborosa e refrescante como a outra. E o efeito placebo é ótimo, às vezes eu até achava que estava ficando de "pilequinho". Não vou falar de marcas, mas as mais comuns são boas. É uma pena que os bares no Rio de Janeiro em geral não tenham cerveja sem álcool, pois é uma boa opção para quem é o "motorista da vez", ou por algum outro motivo não quer beber, embora goste de cerveja.

Em geral os profissionais de saúde não a recomendam, mas já encontrei pelo menos uma entrevista de uma nutricionista que aprova a cerveja sem álcool, na Revista Saúde. A mim a cerveja sem álcool fez muito bem: me ajudou a ultrapassar essa fase da minha vida sem sofrer muito e sem ter que cortar todo o prazer de tomar uma cervejinha com a família ou amigos. Só um alerta: ela é rica em carboidratos, tem glúten e engorda! Por isso, use com moderação.

Passados vários anos da fase da cerveja em excesso e da sem álcool, passei a beber muito menos e somente nos fins de semana, até ter o diagnóstico de diabetes, e ser proibida de beber qualquer tipo de cerveja. "Se for beber alguma coisa, beba vinho", disse o meu médico. Eu gosto de doces e de cerveja, ainda mais com essa onda de cervejas artesanais, então para mim foi como levar uma machadada na cabeça. Chorei, esperneei, e segui em frente: mudei os hábitos alimentares; continuei fazendo exercício (já fazia antes); perdi 10 quilos. Livrei-me do remédio da diabetes, e até hoje quase nunca como doces nem ponho mais de um carboidrato no prato. Só muito raramente tomo uma cervejinha, em ocasiões especiais com amigos.

Recentemente fiz novamente o teste AUDIT e, para espanto meu, ainda acusou problemas com álcool. O vinho que eu tomo nos fins de semana, segundo o resultado do teste, ainda é motivo de preocupação. Com esta constatação, espero  ainda diminuir  o consumo de bebidas alcoólicas até níveis aceitáveis.






quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Eu, gato


Devo ter um senso de humor seriamente distorcido, porque recentemente chorei de rir lendo as desventuras de um gatinho japonês sem nome, narradas pelo próprio gato.... insólito.
Às vezes sinto tanta falta de um gatinho, que é quase uma dor física. Tenho muitas saudades do Bismarck, do Frederico, do Edmundo, do Artaxerxes, do Danilo, do Radamés, do Sardinha, da Pavorinha, para nomear só alguns que foram importantes na minha vida. Eu achava que era a única pessoa que gostava do cheiro dos gatos, mas não: é até um gosto muito comum, quase um clichê. Parece que no Japão até se vende um spray para ambientes com cheiro de cabeça de gato.
Isso me leva a pensar como todas as pessoas no fundo têm as mesmas necessidades e anseiam pelas mesmas coisas. É de aquecer o coração ver como as pessoas miseráveis que moram nas ruas do Rio tratam bem os seus animais de estimação, normalmente cães. O prazer de ser alvo do amor de um cãozinho é maior do que as outras carências dessas pessoas. Cães são barulhentos, palhaços, amigos, babões. Acho que essas pessoas não têm gatos porque é mais difícil mantê-los perto de si nas ruas. Eles são mais independentes e acabam se afastando e voltando a ser selvagens, ou se acomodando em algum lugar mais protegido do que a rua.
Quando moram em ambientes onde se sentem seguros e confiantes, gatos são companheiros silenciosos e afáveis, gostam de atenção, que as pessoas se ocupem deles, os mimem e adorem. Os seus olhos grandes e inteligentes fixam-se nos nossos com uma intensidade quase hipnótica. As proporções das carinhas dos gatos, a vivacidade das orelhas em pé, as brincadeiras de filhote mesmo quando o gato já é velho, fazem deles eternas crianças aos nossos olhos de adultos cansados.

Eu sou um gato (1904) é um romance satírico de Natsume Soseki, importante escritor japonês que até já teve o seu retrato estampado nas notas de 1000 ienes. É fácil baixá-lo em tradução inglesa na internet.

Nota de 1000 ienes de 1984 com a efígie de Natsume Soseki