sábado, 10 de abril de 2021

O Alfabeto do Desespero

Saul Steinberg, 1960
Saul Steinberg, 1960



Há uns dias li um alfabeto da pandemia, feito por um leitor de um jornal em inglês. Não me saiu mais da cabeça, por isso resolvi fazer a minha própria versão, em português:

Assombro, com tudo isso que estamos passando

Bebidas alcoólicas, para tentar aliviar a dor

Coronavírus, o maldito

Desalento, porque não vemos o fim desse pesadelo

Estarrecedor, o noticiário diário

Fome... o assassino silencioso invadindo cada vez mais casas de família

Gritos silenciosos dos entubados

Horas que custam a passar

Indescritível dor dos que ficaram

Jamais teremos que passar por isso novamente - esperança!

Liberdade perdida... pelo menos por quem tem responsabilidade

Madrugadas em claro, pensando no dia seguinte

Negacionismo, a arma dos impotentes

Obrigações, que devem ser cumpridas, cada vez mais

Pandemia, a palavra do ano, da década, do século...

Quarentena nossa de cada dia

Reinfecção, antes uma possibilidade, agora uma certeza

Sintomas, sintomas, estranhos sintomas

Tragédia, cada vez mais presente

Último ano, em que vivemos um pesadelo gigante

Viagens adiadas ou canceladas

Xenofobia, mais um efeito colateral da virose

Zoom, o aplicativo, que quase virou sinônimo de teleconferência

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Pequenas gentilezas

Saul Steinberg, 1970


Estamos todos cansados de doenças, mortes, e também de teorias da conspiração, que seriam até engraçadas se não levassem a resultados tétricos. O homem que se explodiu em Nashville (EUA) no Natal do ano passado acreditava em alienígenas reptilianos que assumiam forma humana para se infiltrar entre nós, teoria que talvez tenha levado aos jacarés da vacina.
Pequenos gestos de gentileza, por outro lado, mesmo sem maiores impactos na situação do planeta, trazem alívio e conforto. Tenho procurado ser mais gentil com as pessoas, o que me faz muito bem.  Tenho também presenciado muitos gestos de gentileza que me surpreenderam e aqueceram o coração. Espero com isto inspirar alguém, mesmo que seja a mim mesma, a tentar praticar um pequeno gesto de gentileza todos os dias. Segue a minha lista, pequenina e incompleta:
  • A empregada do mercado escolhendo limões para entrega na casa de algum perfeito estranho, com todo o cuidado, como se fossem para ela;
  • O morador de rua que cumprimenta meu marido todas as manhãs;
  • O entregador que se ofereceu para levar as minhas compras no carrinho dele;
  • O colega que guardou a minha bicicleta, alugada, que eu tinha deixado solta porque não havia lugar vago para ela;
  • Pessoas que seguram a porta, pedem desculpas quando esbarram em você, abrem passagem no corredor do supermercado;
  • Pessoas que conseguem sorrir com os olhos, para compensar a máscara.



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Tristeza infinita


Saul Steinberg  - New Yorker, 1975

Uma das coisas que mais me entristeceram durante a pandemia, entre mil outras, foi o dia que eu dei uma gargalhada e o Sr. C. disse que há meses não ouvia a minha risada.

Tudo passa... mas algumas coisas deixam marcas para sempre. Penso, logo resisto... tento resistir à tentação de desistir de tudo. E procuro pensar que vou voltar a rir.


domingo, 8 de novembro de 2020

O mundo é branco



Eu sempre atribuí cores a números, letras e sons. Para mim, número dois é vermelho. O som do A é preto. Os sabores para mim têm as cores dos alimentos. Acho que todos temos um pouco dessa ligação entre os sentidos. Falei neste fenômeno porque recentemente passei por um período de anosmia, ou perda do olfato, que me fez lembrar dessa relação entre os sentidos. De repente uma dimensão do mundo ficou totalmente branca para mim. Não foi uma experiência totalmente negativa, foi mais estranha do que horrível. Os alimentos não tinham cheiro de nada, mas tinham sabor, então comer era sempre uma surpresa, em geral agradável. Foram poucos dias, o olfato voltou gradativamente, começando pelos produtos naturais, como a comida, e ainda permanece enfraquecido, quase três meses depois, para produtos químicos, como água sanitária.
Sei que este post não é dos mais interessantes, mas deixo aqui registrada mais uma das minhas impressões da pandemia de COVID-19. A anosmia é um dos sintomas mais frequentes dessa doença.
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"A sinestesia é uma condição neurológica do cérebro que interpreta de diferentes formas os sinais percebidos pelo nosso sistema sensorial. É uma confusão neurológica que provoca a percepção de vários sentidos de uma só vez. Essa condição não é considerada uma doença mental, e sim uma forma diferente que o cérebro tem de interpretar os sinais. Uma em cada duas mil pessoas têm sinestesia, e essas pessoas podem ver sons, sentir cores ou o paladar das formas."
(MORAES, Paula Louredo. "Sinestesia"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/oscincosentidos/sinestesia.htm. Acesso em 22 de setembro de 2020.)



domingo, 23 de agosto de 2020

Comfort Food

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"Comfort food" é o termo em inglês que quer dizer alguma coisa como comida reconfortante. Cada pessoa tem a sua, que normalmente vem da infância. Na Bíblia há um trecho que diz: "conforte-me com maçãs, pois desfaleço de amor". 

Nós, humanos, gostamos de nos confortar uns aos outros com comida. Não sei se entre animais há algum comportamento semelhante. Gatos gostam de trazer animais mortos para os seus donos, mas acredito que eles sabem que nós não gostamos de comer baratas e camundongos. 

Doces, especialmente chocolate, são reconfortantes para muita gente. Tanto para consumir como para oferecermos uns aos aos outros. Uma das minhas comidas reconfortantes preferidas é o Potaje, uma sopa espanhola de grão de bico, que a minha mãe fazia no inverno. Segue a receita: 

POTAJE 
• 1/2 kg de grão de bico demolhado e cozido em água e sal 
• 4 dentes de alho 
• 4 cebolas médias cortadas em meia-lua 
• Azeite 
• Colorau + páprica doce ou picante 
• Folhas de louro 
• Sal e pimenta do reino 
• Salsa e cebolinha verde picadas 
• (Opcional) 1 tomate sem pele picado ou 2 colheres de sopa de polpa ou molho de tomate
Refogar a cebola com o louro no azeite; quando começar a amolecer, juntar o alho, tomate e o colorau e/ou páprica. Juntar o grão de bico com a água do cozimento e deixar ferver. Corrigir o sal, pimenta e juntar mais água, se necessário. Quando estiver fervendo novamente, juntar salsa e cebolinha picadas. Pode levar outros legumes, eu gosto de pôr batatas, cenoura e repolho.
  
O grão de bico, além de ser para muitos uma comida reconfortante, tem muitas propriedades interessantes, como por exemplo: 
1) é um dos melhores alimentos para baixar o colesterol 
2) como outras leguminosas, é muito rico em proteínas 
3) contém um aminoácido conhecido como triptofeno, que, em grande quantidade, produz serotonina, substância responsável pela sensação de bem-estar 
 4) é muito delicioso