domingo, 23 de agosto de 2020

Comfort Food

Designed by Freepik

"Comfort food" é o termo em inglês que quer dizer alguma coisa como comida reconfortante. Cada pessoa tem a sua, que normalmente vem da infância. Na Bíblia há um trecho que diz: "conforte-me com maçãs, pois desfaleço de amor". 

Nós, humanos, gostamos de nos confortar uns aos outros com comida. Não sei se entre animais há algum comportamento semelhante. Gatos gostam de trazer animais mortos para os seus donos, mas acredito que eles sabem que nós não gostamos de comer baratas e camundongos. 

Doces, especialmente chocolate, são reconfortantes para muita gente. Tanto para consumir como para oferecermos uns aos aos outros. Uma das minhas comidas reconfortantes preferidas é o Potaje, uma sopa espanhola de grão de bico, que a minha mãe fazia no inverno. Segue a receita: 

POTAJE 
• 1/2 kg de grão de bico demolhado e cozido em água e sal 
• 4 dentes de alho 
• 4 cebolas médias cortadas em meia-lua 
• Azeite 
• Colorau + páprica doce ou picante 
• Folhas de louro 
• Sal e pimenta do reino 
• Salsa e cebolinha verde picadas 
• (Opcional) 1 tomate sem pele picado ou 2 colheres de sopa de polpa ou molho de tomate
Refogar a cebola com o louro no azeite; quando começar a amolecer, juntar o alho, tomate e o colorau e/ou páprica. Juntar o grão de bico com a água do cozimento e deixar ferver. Corrigir o sal, pimenta e juntar mais água, se necessário. Quando estiver fervendo novamente, juntar salsa e cebolinha picadas. Pode levar outros legumes, eu gosto de pôr batatas, cenoura e repolho.
  
O grão de bico, além de ser para muitos uma comida reconfortante, tem muitas propriedades interessantes, como por exemplo: 
1) é um dos melhores alimentos para baixar o colesterol 
2) como outras leguminosas, é muito rico em proteínas 
3) contém um aminoácido conhecido como triptofeno, que, em grande quantidade, produz serotonina, substância responsável pela sensação de bem-estar 
 4) é muito delicioso

domingo, 26 de julho de 2020

As máscaras da humildade

Masquerade - René Magritte

Parece que ultimamente o cúmulo da ignorância é não usar máscara. Os mais humildes desistiram, ou nem tentaram, pela sua visão fatalista das coisas, acham que vão pegar o COVID-19 de qualquer forma, então de que adianta tentar se proteger? Muitas outras pessoas, não tão humildes assim, não gostam do incômodo da máscara no rosto, e arranjam as desculpas mais variadas para não usar o acessório. Quem procura usar o bom senso e obedecer às autoridades, nem que seja para não se aborrecer à toa, acaba ficando menos protegido do que deveria, em meio a tanta desobediência e fanfarronice.
Sempre me vem à cabeça o pequeno poema de Camões,  Ao desconcerto do Mundo:

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.
Luís de Camões

sábado, 27 de junho de 2020

Em Casa

Fonte: saulsteinbergfoundation.org

Depois de meses quase sem sair de casa, tenho observado efeitos inesperados da pandemia na minha rotina. Alguns até foram positivos, mas elaborar esta lista encheu-me de tristeza.

1) leio menos literatura
2) leio mais jornais
3) faço ginástica (Pilates e HIFT) quase todos os dias
4) vejo poucos filmes (la réalité dépasse la fiction)
5) como comida caseira (feita por mim e pelo Sr. Carlos)
6) lavo muita roupa (cada louco com as suas manias)
7) conserto objetos com super-cola (ainda vou ganhar dinheiro com isso!)
8) ligo para a família e amigos
9) choro com frequência
10) emagreci quatro quilos (até agora)
11) trabalho menos do que gostaria (embora algumas sessões sejam estranhamente produtivas)
12) quase não visito museus virtuais (o Hermitage decepcionou-me. Nunca consegui visitar)
13) descobri que enguias são peixes interessantíssimos. Até comprei um livro narrado por uma
14) escrevo mais no blog

E vocês? Como o confinamento impactou suas vidas?

sábado, 23 de maio de 2020

Flush e outros bichos

A morte do gato Murr - gravura de 1864 de Fernando II de Portugal (fonte: wikipedia)
Às vezes os grandes escritores disfarçam-se de animais, para lançar um olhar perplexo sobre os outros seres humanos. Lembrei-me de alguns livros escritos assim, narrados por cães e gatos, sabendo que há centenas, ou até milhares, de outros. Esta é só uma pequena seleção, que recomendo vivamente que leiam, são todos pequenas jóias:

Flush - este foi o único livro com que Virgínia Woolf ganhou algum dinheiro, que aproveitou para dar um carro à sua irmã Vanessa. É a biografia da poeta Elizabeth Browning narrada do ponto de vista do seu simpático Cocker Spaniel, Flush.

Mürr - é a obra-prima inacabada do escritor alemão E.T.A. Hoffmann. É parte dos "Contos Fantásticos de Hoffman", que deram origem a uma linda ópera, uma das mais populares de todas. O gato Murr gatafunhou as suas memórias em folhas arrancadas da biografia do seu companheiro humano, o Mestre de Capela Kreisler. As considerações do gato Murr ficaram para sempre misturadas com as do Sr. Kreisler. O gato Murr tem-se em grande consideração, é lindo e inteligente, e despreza o seu mestre e as suas complicações amorosas e devaneios artísticos. 

Mrs.Chippy - a divertida narrativa da expedição do Endurance feita pelo gato de estimação do carpinteiro de bordo, na época figuras importantíssimas em qualquer navio (carpinteiros e gatos). Eu escrevi sobre este livro aqui no blog em setembro de 2009.

Eu sou um Gato - um clássico da literatura japonesa, que demonstra que a ideia de escrever sobre os humanos do ponto de vista dos animais surgiu em várias culturas, e gerou várias obras primas. Eu já escrevi sobre "Eu sou um Gato" em novembro de 2019.

Ao escrever pela ótica dos animais os autores procuraram despir-se dos próprios preconceitos para tentar entender e revelar um pouco mais sobre as pessoas. E conseguiram fazê-lo de forma muito leve, esses quatro livros são extremamente divertidos.

Há muitos outros exemplos, claro. Encontrei a lista a seguir na web:
https://www.goodreads.com/list/show/12395.Best_Books_Written_from_an_Animal_s_POV


terça-feira, 28 de abril de 2020

Festas macabras e ursinhos fofos

Cabeças em estacas - fonte: wikipedia 

Quando acabaram os tempos do Terror, depois da Revolução Francesa, alguns parentes de pessoas que haviam sido guilhotinadas passaram a organizar os chamados "Bals des Victimes". Eram bailes em que as pessoas se fantasiavam de guilhotinados, usando cabelos curtos, xales e gargantilhas vermelhas, entre outros adereços macabros. Há historiadores que não acreditam na veracidade desses bailes, dizem que foi uma invenção posterior: Fake News do século XIX. Lembrei-me desses bailes ao ler que andam organizando festas clandestinas durante a pandemia, e em algumas até distribuem máscaras cirúrgicas engraçadinhas aos convidados. Como disse alguém, o que aprendemos com a história é que nada se aprende com a história.


Um destes dias recebi uma figura de um ursinho fofo fazendo um coração com as patas/mãos. Achei a coisa mais piegas do mundo, e fiz uma anotação mental de nunca mandar uma figura dessas para ninguém. Fazer "figura de urso", em Portugal, quer dizer passar vergonha. Dias depois, ao receber notícias tristes, para as quais não havia resposta possível, o que eu fiz? Mandei o ursinho. Depois disso já mandei a ilustração do ursinho para várias pessoas. Neste mundo de cabeça para baixo precisamos de mais ursinhos fofos e de menos arrogância intelectual. Espero que quando esta pandemia passar, os ursinhos fofos permaneçam entre nós e se espalhem, trazendo mais cordialidade e unindo as pessoas.


Foto de Ivan Radic “Lonely teddy bear looking through the window”

Shot on Nikon D610 and Nikon 85mm F1.4G